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CRÍTICA | Eu Não te Ouço analisa a polarização política, mas simplifica conflitos complexos

O que se imagina de um filme que nasce a partir de um meme? Mais que um meme, uma imagem que narrava (e ainda fala sobre) a situação política no país? Os cronicamente onlines prontamente vão se lembrar da imagem do patriota no caminhão em 2022. Pois bem, foi a partir deste episódio que Caco Ciocler teve a ideia de Eu Não te Ouço, uma obra que tensiona a polaridade política entre esquerda e direita no Brasil.

A obra marca o último filme da trilogia política do Caco, que conta com Partida (2019) e O Melhor Lugar do Mundo é Agora (2021).

Eu Não te Ouço segue o caminho do mockumentary, uma narrativa ficcional que simula um documentário. Na narrativa o documentarista ouve os pontos de vista do caminhoneiro, que vem a representar a esquerda, e o patriota no para-brisa, que vem a representar a direita. Ambos os personagens são interpretados por Márcio Vito, que é o ponto alto do filme, sendo o único ator a aparecer na tela e conseguindo diferenciar os dois personagens.

O caminhoneiro de início não parece representar um polo extremista da política, mas sim o trabalhador comum que é diariamente impactado pela polarização. O filme constrói muito bem uma reflexão em cima disso, como uma parte da população brasileira só pretende ir e vir para o seu trabalho e garantir a sua subsistência e da sua família. Também é a partir desse personagem que o filme expõe seu ponto de vista de como o problema político brasileiro é sistemático, que vem de décadas e só vai mudar depois de uma reflexão significativa da população acerca do poder de voto.

Já o patriota desde suas primeiras falas é colocado no perfil da extrema direita. O personagem é tão caricato que parece irreal, mas ao refletirmos ele é a realidade de uma parcela da população escancarada na tela. Não conseguia não lembrar, por exemplo, do recente episódio da Ypê, em que vários eleitores (e políticos) da extrema direita tomaram banho e chegaram até ingerir detergente da marca após a Anvisa anunciar o recolhimento de um lote devido a infecção bacteriana nos produtos. 

Com o decorrer do filme as diferenças entre os dois personagens vão se afinando e acabam sendo apresentados como dois lados da mesma moeda. Ambos pensam estar lutando pelo Brasil, por um país melhor para os seus, porém com seus ideais convictos e irredutíveis ao diálogo.

Nesse ponto o filme se firma com um teor conciliador, de que devemos sair do caminhão para conversar com o outro lado, tentar mostrar os pontos e achar um novo caminho. Apesar de trazer o nome de Lula ou a expressão “faz o L”, Eu Não te Ouço não se preocupa em trazer nomes de políticos para o debate, mas sim uma reflexão em cima de como a sociedade brasileira é impactada por esses políticos.

Se no discurso o filme não se firma a partir do segundo ato, no aspecto técnico ele já escorrega desde o início. Tudo bem que a premissa seja de dois personagens que não se ouçam, mas o público precisa ouvi-los. Na tentativa de criar uma boa ambiência sonora para o patriota em cima do para-brisas, por vezes o barulho do motor fica mais alto que a sua voz e o público perde suas falas. Em alguns momentos é perceptível que esse artifício é proposital, mas em outros ficou parecendo apenas uma falha na finalização do filme.

E para uma obra em um ambiente tão pequeno e com apenas dois personagens (que nem aparecem juntos na tela), o filme apresenta diversos erros de continuidade, como o dia que vira tarde ao mudar de plano e vice-versa. Assim como, se o intuito é emular um documentário, as câmeras precisam estar em perspectivas que façam sentido para a proposta, o que não acontece em diversos planos.

Mesmo que o filme tente desconstruir isso no final, esses detalhes vão tirando o espectador mais atento de dentro da narrativa.

Eu Não te Ouço tem uma premissa interessante e parece até ter boas intenções, mas apresenta um grande perigo. Colocar os dois personagens como lados opostos mas semelhantes, se aproxima da linha tênue de igualar os discursos. O caminhoneiro tem falas mais moderadas que o patriota, que a todo tempo desdenha e acha que receberá louros pela situação. Vivemos em um momento político tão tenso quanto o período em que o homem se grudou ao para-brisa do caminhão. Não podemos igualar os discursos, enquanto um lado (mesmo com seus defeitos) defende a democracia, e outro abertamente já tentou acabar com ela (vide o 8 de janeiro de 2023).

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