Nós vemos cada vez mais golpes pela internet, em WhatsApp e pensamos que isso é algo novo, uma coisa da geração da informática. Mas golpes virtuais não são uma novidade, desde os primórdios da internet no Brasil já aconteciam crimes virtuais.
O Rei da Internet vem para contar a história de uma das pessoas que mais lucraram com esses golpes no início dos anos 2000: Daniel Nascimento. A dramédia narra como o jovem se tornou um dos maiores hackers do Brasil, fez parte de uma organização criminosa que movimentou milhões de reais, viveu intensamente uma vida de ostentação e foi alvo de operação da Polícia Federal. Tudo isso antes de completar 17 anos.
Já que O Rei da Internet conta a história de um hacker, que busca por fama e dinheiro, para não correr o risco de romantizar o seu estilo de vida e as suas atitudes, o filme já inicia alertando sobre os perigos da internet e dos tais golpes, ao mesmo tempo que introduz o tema do longa. A obra faz uso da controversa voz off. O personagem principal é que narra a história, o que no caso ficou útil. Claro que com recursos, o filme poderia procurar outras formas de conduzir a narrativa, mas consegue fazer bom uso da metalinguagem, e se afasta da cafonice.
Diferente da escolha do ator principal. Daniel Nascimento é interpretado por João Guilherme, que fica longe de ser o melhor do elenco, mas também não é o pior. O que não ajudou em nada o ator nesse processo foi a sua diferença de idade para com o personagem. Não existe suspensão de descrença que nos faça acreditar que o Daniel tinha 14 anos no início da trama. Óbvio que pelo teor de drogas ilícitas e sexo que contém na obra, não seria adequado escalar um personagem menor de idade, porém não teve um zelo de convencimento nesse processo.
Já o elenco em volta do personagem principal, que conta com nomes como Marcelo Serrado, Débora Ozório e Kaik Pereira, cumprem muito bem o seu papel e dão o suporte necessário para a trama se desenvolver.

Outro ponto que causa estranhamento é a americanização que ocorre no filme, principalmente na época escolar do Daniel, como o bullying de violência física e atrocidades, como colocar a cara da vítima na privada. Ou em pontos da direção de arte, como as paredes do quarto cheias de posters de bandas e filmes. Essa simulação de quartos estadunidenses no cinema brasileiro é até comum, mas causa estranheza para quem cresceu nos anos 2000 em uma estética totalmente diferente.
Depois que passa esse primeiro ato, o filme realmente engrena em uma aventura cheia de altos e baixos na busca por glória. Apesar de ter um pouco mais de 2 horas de duração, alguns acontecimentos do filme passam depressa, já que ele se preocupa em mostrar como esse estilo de vida cheio de dinheiro e mulheres era irresistível. Os dilemas morais são postos, principalmente na figura do pai de Daniel, mas novamente, não são o cerne do filme.
Um ponto em que o filme poderia entregar ainda mais é no aspecto da montagem. Se no primeiro ato ele brinca a metalinguagem e ousa, principalmente nas partes narradas, ao decorrer da trama a edição vai ficando mais tradicional e não vai muito além do seu papel usual no cinema clássico.

O Rei da Internet nos conta uma história real brasileira pouco explorada. Irreverente e divertido, o filme entretém bem o espectador durante suas mais de 2 horas de duração, fazendo com que ele passeie entre a inveja do estilo de vida do seu protagonista e a repulsa por seus atos criminosos. Além de tudo, escancara na tela a fragilidade da internet e que estamos a todo tempo expostos através de algoritmos e dados.
O filme brasileiro estreia nos cinemas de todo o Brasil no dia 14 de maio de 2026
NOTA: 2,5/5