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CRÍTICA | Alma Negra – do Quilombo ao Baile

Quando pensamos no Blues, R&B e Soul, nosso imagético remete logo para a cultura negra estadunidense. Raramente nos voltamos a essas produções musicais no Brasil. E é isto que o documentário Alma Negra – do Quilombo ao Baile faz. A obra dá um amplo mergulho no universo afro-brasileiro através da soul music, retratando desde o surgimento do gênero, no final dos anos 1960, e o sucesso na indústria fonográfica até o ápice com os famosos bailes blacks no Rio de Janeiro e em São Paulo. O filme retrata o diálogo entre esses movimentos no ramo musical e os movimentos de valorização da cultura negra e a luta política contra o racismo na época.

Dirigido por Flávio Frederico, Alma Negra traz os personagens que fizeram parte da música negra brasileira para que possam narrar essa história, dialogando com historiadores que estudam o período retratado.

Alma Negra – do Quilombo ao Baile pode ser analisada em dois aspectos: no campo do técnico audiovisual, e no campo teórico que se propõe a discutir. E já adianto que a obra acerta muito mais no segundo campo.

Não que o filme seja tecnicamente pobre, mas também não vai muito além do usual em documentários. Entrevistas com duas câmeras, intercalando entre plano médio e primeiro plano. Algo interessante que a obra traz é a mesclagem dos entrevistados com imagens de arquivos, uma ótima pesquisa foi feita, revisitando filmagens de bailes, festivais transmitidos na televisão e falas de intelectuais negros.

Se de um lado o longa acerta bem nesse diálogo com imagens de arquivo, de outro, a montagem é bastante acelerada. Não é de hoje que vemos alguns aspectos da linguagem das redes sociais serem transportados para o cinema, principalmente em uma montagem de ritmo mais acelerado, com cenas curtas. Porém, o documentário é uma linguagem que pede um deleite maior sobre as informações que estão sendo postas. Em muitos momentos Alma Negra desconcentra o espectador por esse excesso de cortes, e atrapalha a narrativa que está sendo contada

Apesar de trazer o subtítulo “do quilombo ao baile”, o documentário não narra uma trajetória linear da história da população negra. Ele vai entrelaçando as linhas temporais, mostrando os reflexos do sistema escravista ressoam nas produções negras, de como o negro demorou para conseguir se afirmar enquanto uma população potente no Brasil. Obviamente Alma Negra expõe a inspiração dos Estados Unidos no movimento da Black Music brasileira, iniciando com o retorno de Tim Maia ao Brasil e suas reverberações.

O filme nos deixa com um gosto de quero mais em duas situações. Ele traz algumas imagens de gravações em estúdio dos artistas reimaginando suas músicas com colaborações especiais, mas essas imagens ficam mais como um aspecto de transição e não sabemos de onde vem.

Porém, o que marca mais é a ausência feminina. Por uma questão de estrutura patriarcal, os homens tiveram mais espaço para criarem seus álbuns e se destacarem na soul music, porém não estavam sozinhos neste caminho. Apesar da participação de Zezé Motta ser marcante, outras mulheres poderiam aparecer como personagens, como Elza Soares, ou até aquelas que não conseguiram alçar voos pela estrutura imposta a elas.

Bem mais que contar uma história, Alma Negra – do Quilombo ao Baile, se preocupa em resgatar quem fez o soul brasileiro nascer e florescer. Esse aspecto fica ainda mais emocional, já que o documentário traz entrevistas com grandes nomes que já faleceram, como Wilson das Neves e Gerson King Combo. Não deixar a obra que essas pessoas (não só artistas, como intelectuais que o filme traz) fizeram caia no esquecimento é algo essencial para que o movimento negro e a valorização do ser negro seja cada vez mais forte e cada vez mais referenciada.

O filme destaca que a escravidão acabou no papel, mas a população negra continua sendo marginalizada e oprimida pelo sistema que privilegia que já veio das casas de engenho. Por outro lado, os quilombos também não acabaram. Os bailes, os momentos de encontro, as rodas de samba, ainda são pontos de aquilombamento, que o negro se permite ser quem é, expressar sua cultura e confraternizar entre os seus.

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