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CRÍTICA | Supergirl não nasceu para ser o Superman de saia — e o filme finalmente entende isso

Se você esperava ler mais uma crítica negativa sobre o primeiro filme solo de Milly Alcock na DC Studios, provavelmente vai se frustrar. Supergirl chegou aos cinemas brasileiros dividindo opiniões. Enquanto alguns consideraram decepcionante o segundo filme do DCU, após Superman, outros, como eu, saíram da sessão renovados por finalmente presenciarem a primeira representação da heroína que não tenta emular uma versão feminina de um personagem masculino.

Em Supergirl, acompanhamos Kara Zor-El (Milly Alcock), uma jovem kryptoniana que não deseja assumir seu papel como heroína. No entanto, uma aliada inesperada e um vilão capaz de ameaçar toda a galáxia podem não lhe deixar outra opção além de encarar seu destino em uma grande aventura. Tudo fica ainda melhor quando ela se une a Lobo (Jason Momoa), um anti-herói capaz de ajudá-la a salvar o universo.

Após estrear em uma breve aparição no final de Superman (2025), Milly Alcock chega para brilhar e construir sua própria história. Ao adaptar a HQ Supergirl: Mulher do Amanhã, o filme ganha uma densidade muito diferente daquela vista na trajetória de seu primo kryptoniano. Por isso, qualquer comparação entre os dois longas me parece incabível. Enquanto Superman trabalha a manutenção de um ideal construído ao longo de décadas em torno de um herói clássico, Supergirl centraliza sua narrativa no luto e na exploração do corpo feminino. São propostas completamente distintas.

Supergirl utiliza o real para provocar o imaginário. O filme faz com que o desequilíbrio das expectativas impostas às mulheres na vida real se reflita em uma personagem fictícia que vive sob a sombra de alguém considerado perfeito. Ao caminhar no extremo oposto de Kal-El, Kara tenta fugir de tudo aquilo que ele representa. Essa fuga pode ser interpretada tanto como parte do processo de luto por sua família e sua cultura, arrancadas dela, quanto como um ato de rebeldia diante das expectativas depositadas sobre si apenas por seu sobrenome. Independentemente da interpretação, uma coisa é certa: Kara nos mostra que existe mais de uma maneira de enxergar e praticar a bondade.

Durante toda a trama escrita por Ana Nogueira, Kara atravessa a galáxia em busca de algo que jamais encontrará por meio de estímulos externos: a paz. Embora sua jornada seja revestida por uma aventura espacial entre duas meninas de gerações diferentes, unidas por um mesmo trauma, o filme sempre retorna ao mesmo ponto: enfrentar o passado para conseguir viver o presente.

Talvez o aspecto mais interessante da adaptação seja justamente o timing do arco sobre a exploração de corpos femininos. Em uma sociedade que finalmente passa a lançar luz sobre crimes acobertados por décadas de impunidade envolvendo Jeffrey Epstein e seu círculo social, inserir um vilão cercado por “noivas” — mulheres sequestradas, violentadas e forçadas a servi-lo — representa uma demonstração de coragem da DC em levar novamente uma narrativa política aos cinemas.

É justamente por isso que Matthias Schoenaerts brilha como Krem. O ator se afasta dos vilões caricatos e cartunescos para construir uma figura grotesca e repulsiva: um homem que usa o poder como instrumento para oprimir mulheres.

Tudo isso, assim como os demais elementos que mencionei, reforça a ligação da personagem com a realidade — inclusive na forma como o filme vem sendo recebido. O arco de Kara, constantemente comparada ao primo, pressionada a ser perfeita e tratada como uma espécie de salvadora de povos inteiros, encontra eco na maneira como parte do público masculino reagiu ao longa. A régua para as mulheres sempre é mais alta.

A desproporcionalidade de muitas críticas negativas revela que determinadas narrativas femininas ainda encontram pouca abertura entre alguns espectadores. Em uma época em que tantos filmes de super-heróis medianos são facilmente aceitos, Supergirl parece não ter direito ao erro. Ela não pode simplesmente ser divertida, nem apenas boa. Para ser considerada bem-sucedida, precisa ser excepcional. Precisa fazer mais, entregar o dobro e, ainda assim, talvez apenas então seja aceita como seu primo.

Há, porém, algo que não pode ser negado: Milly Alcock está excepcional. A atriz rompe completamente com todas as versões anteriores da heroína em live-action. Sua Supergirl não é apenas uma versão feminina de Superman. Ela possui identidade própria, propósito, personalidade e individualidade. O filme depende inteiramente de seu carisma e de sua atuação. Milly é a alma da produção. É com ela que rimos, sofremos, nos emocionamos e nos identificamos. Sem Milly, não existe Supergirl.

Seu talento também se evidencia na parceria com Eve Ridley, intérprete da jovem Ruthye. Embora ambas estejam cercadas por uma violência masculina que as afeta física e emocionalmente, encontram uma na outra o reflexo de suas dores, construindo um arco dramático íntimo e profundamente humano.

Já a participação de Jason Momoa pouco acrescenta. Sua presença transmite a sensação de um capricho do próprio ator, como se o estúdio apenas tivesse decidido atender ao desejo do protagonista de seu último filme bilionário.

Supergirl compreende a estrutura dos grandes filmes de super-heróis, mas acaba sendo mais um exemplar do gênero. Apesar disso, ela utiliza muito bem suas sequências de ação — que não existem apenas como espetáculo. Cada confronto deixa marcas na protagonista, interfere diretamente em sua relação com Ruthye e impulsiona seu amadurecimento.

O longa também bebe de referências de Star Wars na construção de seu universo intergaláctico. A influência aparece menos na narrativa e mais na ambientação. A trilha sonora, que foi um dos grandes chamativos antes da sua estreia, deixa um pouco a desejar quanto a sua utilização em momentos importantes da trama.

Outro grande acerto está na maneira como apresenta sua protagonista. Em vez de recorrer a uma história de origem convencional, interrompendo a narrativa para explicar quem é Kara, o filme faz com que o espectador descubra seu passado enquanto ela própria é obrigada a revisitá-lo. Sua origem não funciona como mera exposição; ela nasce do trauma, da saudade e das cicatrizes que ainda carrega. Assim, a história de origem deixa de ser um prólogo obrigatório e passa a ser consequência do conflito emocional vivido pela personagem durante toda a trama.

Nem tudo, porém, funciona. A direção de fotografia talvez seja o aspecto mais inconsistente da produção. Embora o filme apresente um universo rico em conceitos e cenários, a execução visual nem sempre faz jus à grandiosidade proposta, em especial na batalha final.

Há ainda uma sensação de que Craig Gillespie encontra dificuldades para imprimir uma identidade visual completamente própria. Em diversos momentos — especialmente nas transições e na composição de algumas cenas — a direção parece excessivamente presa às referências estabelecidas por James Gunn. Se, por um lado, isso contribui para a unidade visual do novo DCU, por outro limita a personalidade do filme, que poderia ousar mais justamente por acompanhar uma protagonista tão diferente de seu primo.

Apesar de não reinventar o cinema de super-heróis, Supergirl é um filme eficiente, sensível e seguro da história que deseja contar. Ele entrega aquilo que esperamos de uma aventura do gênero, estabelece um diálogo íntimo com o público feminino sem recorrer ao apelo fácil e, acima de tudo, finalmente permite que Kara Zor-El exista para além da eterna comparação com Superman. Pela primeira vez no cinema, Supergirl não precisa ser “a versão feminina” de alguém. Ela simplesmente pode ser Supergirl.

Nota: 3,7/5

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