O Testamento de Ann Lee é um musical ambientado no século 18 estrelado por Amanda Seyfried, que interpreta a fundadora da seita religiosa conhecida como Shakers. Neste filme, acompanhamos toda a vida de Ann Lee, de sua difícil porém esperançosa infância até o fim de sua vida. A narrativa transita entre a opressão da Inglaterra industrial e a busca por uma utopia espiritual em solo americano, construindo um cenário que justifica a jornada de sacrifício da protagonista.
O movimento religioso aplicado por Ann Lee acreditava que a mesma era o reaparecimento de Jesus Cristo, agora num corpo feminino, e pregava o celibato, cânticos e danças expressivas, que acabou dando nome ao grupo. O filme, inevitavelmente, tinha que ser um musical e foi perfeitamente aplicado a ele. Amanda Seyfried brilha mais uma vez com sua voz, seus movimentos e expressividade na medida exata. As cenas de pregação e visões de Ann passam uma completa entrega à personagem e o entendimento da história que está sendo contada. Sua interpretação captura a dualidade de uma mulher que é, ao mesmo tempo, uma líder e uma alma profundamente atormentada pelas perdas pessoais que moldaram sua fé.

Lewis Pullman também entrega uma atuação visceral no papel de William Lee, devoto irmão da protagonista. William é o braço direito da irmã, o fiel mais devoto da “Mãe Ann” e traz grande importância para a trama. Ele recruta novos fiéis, protege a irmã e se entrega completamente à religião. A vulnerabilidade que Pullman dá ao personagem serve como um contraponto à intensidade de Seyfried, humanizando o peso emocional daqueles que abdicaram de suas vidas para segui-la cegamente.
A redação do filme vem do casal que foi muito aclamado por O Brutalista, Brady Corbet e Mona Fastvold, e a direção do filme ficando com a última. Direção essa que te coloca diretamente dentro da Broadway, com a movimentação do elenco, as danças e as músicas que ecoam perfeitamente na sala do cinema. O trabalho de som e coreografia é primoroso, fazendo com que cada batida de pé e cada harmonização vocal pareça um diálogo direto com o espectador. O filme pode agradar até mesmo as pessoas que torcem o nariz para musicais, uma vez que é muito bem encaixado e dialoga bem com as cenas.

Entretanto, peca um pouco na parte ativista. Mãe Ann Lee é lembrada por ser um ícone da igualdade, independentemente de gênero ou raça e da vida comunitária. Isso fez com que ela fosse vista como uma inimiga da Igreja Anglicana. No filme, ela realmente aparece sendo perseguida e muitas vezes presa e agredida, mas não demonstra claramente as motivações dos seus inimigos. O longa também poderia ter se aproveitado mais de uma visão feminista da história e pesado mais um pouco a mão na parte de igualdade de gênero. Fica a sensação de que a obra priorizou o espetáculo estético e a performance em vez da profundidade sociopolítica que uma figura histórica tão disruptiva exigia.
O Testamento de Ann Lee se consolida como uma experiência sensorial poderosa, que utiliza a linguagem musical para traduzir o fervor de uma fé. Embora o roteiro de Corbet e Fastvold pudesse ter mergulhado com mais coragem nas nuances políticas e no impacto feminista da “Mãe Ann”, a obra ainda assim entrega um espetáculo técnico impecável. É um filme que, apesar de suas lacunas históricas, reverbera pela força de sua protagonista.

Dessa forma, a ausência do nome de Amanda Seyfried entre as atrizes para receber a estatueta do Oscar causa grande estranhamento, já que ela é elogiada por diversos críticos e foi indicada a melhor atriz no Globo de Ouro, Critics’ Choice Awards e vencedora no Astra Film Awards na categoria Melhor Atriz Em Comédia Ou Musical. Sua performance é o verdadeiro alicerce que sustenta o longa, provando que, mesmo quando o roteiro hesita em ser um manifesto, a atuação de Seyfried consegue transmitir toda a garra de uma mulher que desafiou seu tempo.
O filme está em exibição nos cinemas.
Nota: 4,6/5