As guerras e conflitos no território de Gaza têm um longo histórico, cheio de relações complexas, disputas por territórios e personagens, pelo menos minimamente, controversos. Apesar da região estar presente nos noticiários internacionais a décadas, foi a partir de 7 de outubro de 2023 que a guerra em Gaza escalonou e virou uma das protagonistas no cenário geopolítico internacional.
Nesta data, o grupo Hamas, que legitimamente governa(va) a Palestina, fez um ataque à Israel. Segundo o grupo, o ataque veio como uma retaliação às ações do estado israelense que incorpora territórios da Palestina a seus domínios desde a segunda metade da década de 1940, após a segunda guerra mundial.
Desde 2023 o conflito bélico vem escalonando, e Israel ataca massivamente o povo palestino, sendo acusado por diversas nações e órgãos internacionais de cometer genocídio. O filme A Voz De Hind Rajab se passa em janeiro de 2024, menos de seis meses depois do avanço das tropas israelenses dentro do estado Palestino.
No longa acompanhamos uma equipe de voluntários da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, um grupo que recebe ligações de emergência de pessoas em situação de perigo dentro do conflito. Neste dia, Omar (Motaz Malhees) entra em contato com Hind Rajab, uma menina de seis anos que está presa dentro de um carro junto da sua família, porém todos os outros estão mortos.
Dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania (As 4 Filhas de Olfa), o filme não quer apenas conscientizar o público sobre o conflito, mas que ele quer chocar e impactar… e ele consegue. Ben Hania se utiliza não apenas de uma história real para construir a narrativa, mas também não traz nenhuma atriz para interpretar a pequena Hind, usando as gravações reais das horas de chamada para fazer a garota falar com os outros personagens.

Durante A Voz De Hind Rajab o medo e a tensão se instauram no espectador a todo momento, não sabemos o que vai acontecer. Queremos que a garota saia viva dessa situação, mas também sabemos que um resgate é pouco provável. Omar é o que tem o primeiro contato com a criança, e ele se recusa a aceitar essa situação, entrando em conflito com Mahdi (Amer Hlehel), que precisa passar por toda a burocracia para enviar uma equipe de resgate para não correr o risco de perder seus socorristas no processo. Clara Khoury, nos trás Nisreen, a personagem que media os conflitos naquele ambiente, servindo com uma psicóloga/conselheira, dentro de um lugar cheio de tensão e encruzilhadas.
Apesar de todos os três atores já citados apresentarem um ótimo trabalho no longa, é Saja Kilani, que interpreta Sana, que se destaca. A atriz nos traz uma atuação visceral, consegue nos levar para junto das emoções da personagem, a calma para tranquilizar Omar, depois o desespero do tempo passando e nada acontecer, se transformando em uma tristeza e impotência, de que apesar de estar conversando com Hind Rajab, não poder fazer nada para além daquele telefone. Se destacando, para mim, como uma das maiores atuações do ano.

Kaouther Ben Hania faz escolhas muito precisas para a construção de A Voz De Hind Rajab, desde o seu título, passando pela condução da diegese, e até os créditos finais. O nome do filme (que recebeu a tradução literal no Brasil), enlaça o uso da voz real de Hind no longa, e em alguns momentos até as vozes dos socorristas ao invés dos atores.
A montagem do filme também não te quebra em cortes rápidos, diálogos com plano e contra-planos, pelo contrário, Ben Hania deixa as cenas fluírem em planos longos, nos quais as emoções dos personagens se destacam mais ainda na tela. E quando você pensa que ela tinha arrancado tudo de você com a história, a gritaria nos momentos de discussão, os sons de tiros (que também são das chamadas reais), a diretora nos traz os créditos finais sem trilha sonora,e pode até parecer algo simples, mas te tira do eixo, te leva mais uma vez para um lugar inesperado e faz o espectador refletir ainda mais sobre o que acabou de assistir.
Vencedor do Leão de Ouro – Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza de 2025, e o escolhido para representar a Tunísia na disputa do Oscar em 2026, A Voz De Hind Rajab talvez seja o filme mais importante no sentido político e humanitário dessa temporada. Não é um filme fácil de ser digerido, não é um filme que te leva para um lugar de entretenimento, mas às vezes é preciso que a arte nos choque para conseguirmos entender a que passos anda a realidade.
NOTA: 5/5