Ferrari por muitas décadas foi símbolo de luxo e poder para muitos que são fascinados por carros. Contudo, o que Michael Mann mostra em seu novo filme é que a história de Enzo Ferrari vai além da opulência que sua marca contém hoje em dia. A cinebiografia “Ferrari” é uma história sobre poder, controle (a falta dele) e das relações interpessoais que moldam as escolhas de nossa vida, ainda assim, o roteiro decepciona quando decide escolher deixar de fora momentos que fariam dele um ótimo filme, trazendo, assim, somente a promessa de uma grandiosidade que ele não consegue alcançar.
A trama é ambientada no verão de 1957 em um momento em que o empresário e ex-piloto de corridas Enzo Ferrari está em crise. A falência persegue a empresa que ele e sua esposa, Laura, construíram há dez anos. Seu casamento é conflitante devido o luto enfrentado por um filho e o reconhecimento de outro. Ele decide então contrariar tudo e apostar numa corrida de mil milhas pela Itália, a conhecida Mille Miglia.

Com 2 horas e 10 minutos de duração, Ferrari decide introduzir sua história como se nós tivéssemos perdido um filme anterior. Ignorando acontecimentos que moldam o protagonista, o filme prefere construir em sua narrativa os efeitos de uma sequência de tragédias, o fundo do poço e os conflitos pessoais e profissionais de Enzo Ferrari. Assim, os acontecimentos ganham uma magnitude maior do que esperado, se estendem de maneira excessiva e faz da história algo entediante de ser assistido em grande parte.
Ainda assim, vale mencionar que a direção de Michael Mann é sublime quando os carros estão envolvidos, principalmente na cena final. A produção chega ao seu ápice nos 20 minutos finais e deixa o gosto amargo no espectador que esperava ver momentos como aquele com mais frequência. Intenso, chocante e avassalador. Porém, infelizmente, o roteiro de Troy Kennedy-Martin e David Rayfield opta por abordar o drama pessoal de Enzo, trazer à tona o relacionamento repleto de infidelidades e um filho ilegítimo, enquanto o casal lida com o luto da perda do seu herdeiro primogênito.

Irreconhecível, Adam Driver evolui e mostra uma versão aprimorada do seu italiano já exibido em Casa Gucci. Incisivo, emanando poder enquanto está imerso em uma avalanche de acontecimentos desastrosos, o ator dá vida a um personagem complexo e interessante de ser assistido. Contudo, o destaque em Ferrari é definitivamente Penélope Cruz. A atriz espanhola é feroz e imbatível em sua performance, desde dos conflitos com seu marido até a vulnerabilidade que o luto a fez ter. Em literalmente todos momentos em que aparece em cena, Cruz rouba o holofote para si de maneira inigualável. Enquanto isso, Shailene Woodley parece tão deslocada, tanto em sua atuação morna e distante, quando em sua caracterização que parece não pertencer a época em que vive (esse ultimo ponto se estende também ao Patrick Dempsey).
Ferrari, infelizmente, foi (para mim) frustrante. Ainda não entendo como o roteiro, que tinha em mãos o envolvimento de Ferrari na Segunda Guerra Mundial, as mortes de sua família e a venda de parte da empresa para a Fiat, resolveu escolher trazer em sua narrativa a coisa mais blasé da vida do empresário: seus relacionamentos amorosos e sua incapacidade de manter financeiramente sua empresa, que tinha apenas 10 anos de existência.
O filme estreia nesta quinta-feira, dia 22 de fevereiro, nos cinemas.
Nota: 3/5








