Em Ciarema, o avanço do mar desabriga famílias. Alice mora com Helena, sua mãe doente, em uma casa castigada pelas ressacas. Alice quer ir embora, mas Helena deseja permanecer em frente ao mar. É dentro desse drama familiar que se passa a história de A Praia do Fim do Mundo, filme de Petrus Cariry e um dos integrantes da lista de possíveis indicados ao Oscar pelo Brasil.
A Praia do Fim do Mundo se passa na cidade fictícia de Ciarema, ao localizar a trama neste lugar, faz com que ela se identifique com diversas regiões do Brasil, seja no litoral cearense (de onde Petrus veio), seja no litoral sergipano (de onde eu falo), ou vários litorais que estão sendo invadidos (ou retomados) pelo mar e ameaçando diversas casas de serem derrubadas. Quem tem condições de sair dessa situação, vai logo, porém tem aquelas famílias que não tem condições financeiras de se mudar e vivem nessa situação de perigo.
O filme já inicia nos contextualizando neste lugar, e parece que ele vai nos conduzir para um caminho político, de luta dos moradores daquela região por sua sobrevivência. Porém Petrus utiliza desse gatilho para nos introduzir em um drama familiar, em um conflito geracional, de uma mãe que quer se manter firme nas suas raízes, mesmo que para isto precise negar evidências que estão à amostra, e uma filha que não vê mais solução para a situação, mas também se encontra presa na dependência da mãe.

A Praia do Fim do Mundo é protagonizado por Marcelia Cartaxo (A Hora da Estrela) e Fátima Macedo (O Clube dos Canibais). Ambas entregam atuações primorosas, sentimos na tela as suas dores, os seus anseios, e por diversos momentos sentimos até raiva das personagens por suas decisões (que apesar de causarem esse sentimento, fazem total sentido com a sua construção). Para além do par de protagonistas, temos a presença de Larissa Goes (Fortaleza Hotel), interpretando Elisa, uma amiga de Alice, que apesar de apoiar a amiga em tudo, esconde uma paixão por ela.
A força de A Praia do Fim do Mundo é justamente trazer a narrativa para a nossa semelhança, fazer a sua denúncia, mas envolta de uma trama comum entre os brasileiros. Mesmo que diversas cidades litorâneas sofram com a mesma situação do filme (que não se localiza no tempo, se é no presente ou em um futuro próximo), a identificação do público com o longa vem no confronto entre Helena e Alice. Quem nunca teve problemas com a mãe? Uma mãe que sofre um luto de anos e acaba adoecendo por isto, e uma filha que não consegue sua liberdade por ter esse dever de cuidar da mãe, ao mesmo tempo em que se vê na velha história do espelho, repetindo os seus atos.

A Praia do Fim do Mundo é um filme forte, com certeza um dos maiores lançamentos do cinema brasileiro no ano. Apesar de seguir uma narrativa clássica, os toques surrealistas e a fotografia em preto e branco (mas que é belíssima, por sinal) pode afastar alguns espectadores mais tradicionais. Consequentemente pode também tirar força da campanha do filme na corrida da indicação, principalmente tendo O Agente Secreto e O Último Azul na concorrência.
NOTA: 4,5/5