A história do Brasil é perpassada pela história da Bahia, onde os colonizadores primeiro pisaram na nossa terra, onde fica Salvador, a primeira capital do nosso país, e um dos locais mais importantes para as histórias das religiões de matriz africana, em especial o Candomblé. É nesse estado que nascem dois dos protagonistas da história de 3 Obás de Xangô, o compositor lendário soteropolitano Dorival Caymmi, e o escritor de diversos clássicos da literatura brasileira e ex-deputado federal Jorge Amado.
O documentário é de direção de Sérgio Machado, diretor de Cidade Baixa (2005) e um dos roteiristas de Cidade de Deus — A Luta Não Para (2024), e conta a história do conselho dos Obás, um grupo político-litúrgico importante para a defesa da liberdade religiosa dos praticantes de religiões de matrizes afro-brasileiras. Esse grupo sempre foi formado por grandes personalidades da história cultural brasileira, tendo membros como o músico e ex-ministro Gilberto Gil e o sociólogo Muniz Sodré. No caso do documentário, o longa irá tratar de três grandes figuras desse grupo: Dorival Caymmi, Jorge Amado e Carybé.

Sérgio Machado conta a história desses personagens que são base na cultura baiana e brasileira, das suas influências na política e defesa do candomblé até as suas vidas urbanas e cidadãs. Existe um olhar muito único e muito bonito sobre como são retratados os personagens do filme, que são sempre trabalhados com muito respeito e carinho. Machado tem delicadeza ao contar os relatos e crônicas de Caymmi e Amado, e passa essa delicadeza para quem assiste ao longa.
3 Obás de Xangô é acima de tudo um conto de amizades, deixando bem palpável a relação entre os três integrantes. Não é a toa também, visto que as vivências e trabalhos artísticos e políticos deles moldam a cultura baiana até hoje. Entre os momentos mais impactantes do filme, estão os momentos mais simples da vida do grupo. A relação deles com a religião, a relação deles com os familiares e a relação deles com a própria arte. Afeto é uma palavra que se tornou quase irônica, mas nesse contexto uso ela da forma mais sincera possível: o filme transborda afeto.

Além de muito carinhoso, Sérgio Machado trás essas figuras quase folclóricas da história brasileira para o chão onde todos pisamos. Não existem festas na distância da população, não existem mordomias que estamos acostumados a ver com alguns artistas atuais que não se colocam ao lado dos mortais cidadãos comuns. Existem pessoas reais que vivem, comem e tropeçam (de forma literal) como todos nós.
Um aspecto muito interessante do filme é ele ser majoritariamente feito com imagens de arquivo. Jorge Amado faleceu em 2001, Dorival Caymmi foi-se em 2008 e Carybé foi ainda antes, em 1997. Por esse motivo, obviamente gravações recentes com os protagonistas do filme não são possíveis, e isso faz esse documentário ter um teor ainda mais especial, cheio de homenagens póstumas.

Se tem algo que posso reclamar do filme, é que sinto falta do pintor Carybé ser explorado de forma mais aprofundada. Após as mais de 2h de documentário, sinto que conheço quase que intimamente Jorge e Dorival, mas não conheço quase nada sobre Hector Julio. Não sei se em algum momento chegou a fazer parte da proposta do filme abordar o desenhista de uma forma tão detalhada, então não posso criticar tanto por isso.
O documentário ganhou o Grande Otelo como melhor longa-documental, e não é a toa. É bonito, é interessante, é inteligente e é recheado de bons sentimentos e reflexão sobre a história, cultura e religião do nosso país. 3 Obás de Xangô será lançado no dia 4 de setembro de 2025 e é uma produção da Coqueirão Pictures, com Janela do Mundo, Globo Filmes e GloboNews. Recomendo demais para todos que se interessam minimamente pela história e cultura do Brasil.
Nota: 5/5