Vivendo na marginalidade da própria existência, “Anora” , nome que rejeita ao construir uma proteção, estampa o título do filme dirigido e escrito por Sean Baker e protagonizado por Mikey Madison. Indicado em 6 categorias no Oscar, incluindo a de Melhor Filme, o filme já garantiu a estatueta do Critics Choice Awards de Melhor Filme e o de Melhor Atriz no Spirit Awards.
Em cartaz nos cinemas brasileiros, Anora conta a história de uma trabalhadora do sexo da região do Brooklyn, nos Estados Unidos. Em uma noite aparentemente normal de mais um dia de trabalho, a garota descobre que pode ter tirado a sorte grande, uma oportunidade de mudar seu destino: ela acredita ter encontrado o seu verdadeiro amor após se casar impulsivamente com o filho de um oligarca, o herdeiro russo Ivan (Mark Eidelshtein). Não demora muito para que a notícia se espalhe pela Rússia e logo o seu conto de fadas é ameaçado quando os pais de Ivan entram em cena, desaprovando totalmente o casamento.

Com 2 horas e 19 minutos de duração, o filme de Sean Baker faz uma leitura crítica a mulheres que, como Anora, fazem o que é preciso para sobreviver. Retratando-a na primeira parte do filme como se fosse coadjuvante da sua própria história, exibindo como o papel de uma mulher pode ser reduzido e visto como um objeto de desejo, Madison vive uma protagonista que renega sua história afim de se proteger, cria um alter ego frio e distante para fugir da realidade do abandono, assim, se agarrando a qualquer oportunidade de uma mudança emocional e econômica.
Mikey Madison mostra um lado interessante e ainda não visto pelo público até o momento. A atriz resgata a sensação de como foi ter visto Julia Roberts em Uma Linda Mulher ao trazer uma mulher não convencional que é capaz de gerar afeto e até um senso de justiça em determinados momentos. Carismática e com uma desenvoltura invejável, é justificável as indicações da atriz na temporada de premiação e sua vitória em algumas delas.

Em uma jornada de auto afirmação, Anora confronta desespero e solidão. Se Baker constrói um texto que em sua superfície é cômico, ao fim, a realização de que na verdade o drama se fazia presente a todo momento em Anora chega com força nos minutos finais, trazendo uma conclusão intensa e compatível com o desabrochar da personagem ao longo de sua história.
Anora é uma surpresa positiva dentro da temporada de premiação. As camadas dentro de uma protagonista tão complexa não poderia ser ignorada pela Academia. Mesmo não sendo um dos meus favoritos dentre os indicados deste ano, é inegável que o filme tem o seu encanto e o diferencial que o faz ser especial: Mikey Madison.
Nota: 4/5