Indicado a Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, Nickel Boys nos segue dois meninos afro-americanos, Elwood (Ethan Herisse) e Turner (Brandon Wilson), que são enviados para um reformatório abusivo na na era Jim Crow. O filme dirigido por RaMell Ross é inspirado no livro The Nickel Boys, de Colson Whitehead. O livro, por sua vez, ficcionaliza a história inspirado nos acontecimentos da Dozier School for Boys, um reformatório da Flórida que funcionou entre 1900 e 2011, notório por seu tratamento abusivo aos alunos. Há uma estimativa de que entre 1900 e 1973, quase 100 crianças entre seis e dezoito anos morreram na Dozier.
Nickel Boys não é filme fácil de ser digerido, ele é uma denúncia da violência contra esses jovens negros, então durante toda a trama sentimos um gosto amargo e revolta que o longa quer passar. Não li a obra original para falar sobre fidelidade ao livro, porém, o filme faz jus às suas duas indicações, trazendo um roteiro instigante e surpreendente. A mise en cene criada por RaMell Ross também é primorosa, sendo cuidadosa para nos impactar com a violência, mas sem mostrar de forma gratuita o sofrimento físico dos jovens.
Sem dúvidas o que chama mais a atenção em Nickel Boys é a sua fotografia em primeira pessoa. Vemos todo o universo do filme através do olhar de Elwood e Turner. O filme dá até algumas “roubadinhas” quanto a isto, por exemplo o fato de dividir essa primeira visão em primeira pessoa em dois personagens, muito para não deixar o filme monótono e poder trazer desdobramentos a mais para a trama. Outro exemplo também é quando utiliza o plano detalhe em algumas cenas, mesmo o personagem estando longa, mas compramos isso através da justificativa de que o personagem está focando sua atenção naquele assunto ignorando sua visão periférica.

A dupla protagonista nos surpreende em tela, dois rostos pouco conhecidos que conseguem carregar muito bem a dramaticidade que o filme pede. Ethan Herisse, que já nos emocionou em Olhos que Condenam, carrega aqui o papel condutor da trama, um Elwood que estava prestes a entrar na faculdade e atingir seu potencial e que por um infeliz acaso vai para a prisão. Ethan nos entrega um personagem inicialmente ingênuo, que achava que poderia mudar o mundo e vai endurecendo com os maltratos da instituição. Elwood percebe que nem todas as pessoas são como ele e sua avó e é apresentado a um mundo violento e corrupto.
Quem o segue nessa jornada é Turner, interpretado por Brandon Wilson, que não tem destaques na sua filmografia até aqui. Apesar de dividir o protagonismo, Turner é um garoto mais misterioso, não conhecemos muito sobre seu passado nem os motivos por ele está ali, mas essas informações não tem muita importância na criação de laços que ele cria com Elwood. Os dois amigos fazem o possível para sobreviver dentro da Instituição Nickel, porque sabem que não será fácil sair de lá.
Quem também rouba a cena quando aparece é Aunjanue Ellis, que interpreta a “Nana” de Elwood. Ellis nos traz uma figura materna cheia de carinho e cuidado, que apesar de proteger seu neto do mundo, não consegue fugir do sistema violento e racista dos Estados Unidos na década de 1960.

Nickel Boys pode parecer surpresa para alguns dentro da briga do Oscar, mas merecidamente o filme vem conquistando indicações e prêmios nesta temporada. Em uma era de filmes bastante políticos na maior premiação de Hollywood, Nickel Boys surge como mais um soco no estômago, que ao mesmo tempo que nos revolta, nos encanta.
NOTA: 4,5/5