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CRÍTICA | O indicado ao Oscar ‘Trilha Sonora para um Golpe de Estado’

Indicado ao Oscar na categoria de Melhor Documentário, Trilha Sonora para um Golpe de Estado nos mostra que música e política se misturam, e muito. O longa reconstitui os últimos meses antes de Patrice Lumumba, primeiro presidente eleito democraticamente do Congo com um panorama das artimanhas políticas que incendiaram o contexto internacional da época, nos mostrando como a música influenciou no processo político no Congo.

Dirigido por Johan Grimonprez, o documentário é totalmente construído a partir de imagens de arquivo. Como toda boa pesquisa, ao trazer citações e explicações para a tela, o diretor faz questão de colocar de qual referência tirou aqueles trechos, nos dando acesso também ao acervo que foi utilizado na pesquisa.

O evento que Trilha Sonora para um Golpe de Estado se propõe a nos apresentar é um momento crítico na história dos países africanos, é cheio de detalhes e personagens, fazendo com que seja fácil que o espectador se perca na infinidade de informações. Esse é o maior defeito do filme, ele inicia confuso, apresentando diversos personagens seguidamente, em um ritmo frenético que para quem não conhece do universo do jazz e dos personagens políticos da Guerra Fria, acaba se perdendo em meio a tanta informação. Apenas depois da primeira meia hora de filme o ritmo se assenta e conseguimos seguir a narrativa com mais respiros.

O documentário nos apresenta as duas faces da influência da música nesse processo político do Congo. Em meados dos anos 1950, o mundo estava dividido e tenso na disputa ideológica entre os Estados Unidos e a União Soviética. O Congo, ainda como colônia da Bélgica, estava do lado dos EUA, porém internamente recebia influência das outras nações africanas que estavam alcançando sua independência, muito com apoio e influência da URSS. É através da liderança de Patrice Lumumba que a República Democrática do Congo alcança sua independência, porém, logo depois sofre um golpe de estado militar, que passa a comandar o país e prende Lumumba.

O Congo enquanto uma nação negra foi muito receptiva ao jazz, e percebendo isto os EUA enviava seus principais artistas do gênero para turnês na África, como Louis Armstrong e Nina Simone. Porém, sem que os artistas soubessem, essas turnês eram um disfarce para a inserção de agentes da CIA no continente negro. Essas missões secretas aconteciam ao mesmo tempo em que um bloco África-Ásia surge na ONU reivindicando o fim do colonialismo e imperialismo. Ao mesmo tempo que esses artistas financiados pelo governo estadunidense faziam suas turnês, outros artistas negros protestavam e faziam canções pró-independência africana, e consequentemente, pela libertação de Lumumba.

Até os dias atuais a República Democrática do Congo sofre as consequência dessa disputa política, ainda vivendo uma guerra civil em seu território. Trilha Sonora para um Golpe de Estado é um documentário denso, mas nos elucida sobre a construção desse conflito, escancarando como os Estados Unidos utilizou da cultura e as artes (neste caso a música) para invadir nações e financiar ditaduras, com o intuito que a União Soviética e o comunismo não atingisse mais países.

Um dos favoritos para levar o Oscar na sua categoria, o documentário traz uma construção bem completa, apresentando referências para deixar bem claro que não está inventando fatos, e também colocando de forma bem explicita a sua opinião e seu posicionamento perante os acontecimentos durante a Guerra Fria. O filme estreia de 30 de janeiro nos cinemas brasileiros.

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