Garantindo 8 indicações no Oscar 2025, incluindo a de Melhor Filme, Conclave chegou nos cinemas do Brasil na última quinta-feira, 23, trazendo uma história que explora a curiosidade diante do mistério em volta do Vaticano, enquanto exibe o declínio daqueles que manipulam a fé com certezas infundadas.
Em Conclave, acompanhamos um dos eventos mais secretos do mundo: a escolha de um novo Papa. Lawrence (Ralph Fiennes), conhecido também como Cardeal Lomeli, é o encarregado de executar essa reunião confidencial após a morte inesperada do amado e atual pontífice. Sem entender o motivo, Lawrence foi escolhido a dedo para conduzir o conclave como última ordem do papa antes de morrer. Lawrence, então, acaba no centro de uma conspiração e descobre um segredo do falecido pontífice que pode abalar os próprios alicerces da Igreja. Em jogo, estão não só a fé, mas os próprios alicerces da instituição diante de uma série de reviravoltas que tomam conta dessa assembleia sigilosa.

Dirigido por Edward Berger, Conclave utiliza suas 2 horas de duração para construir um ambiente hostil de enclausuramento de autoridades religiosas sedentas por poder a qualquer custo. Através de uma jornada investigativa, o roteiro de Peter Straughan constrói personalidades fortes e imponentes, ao tempo em que exibe vulnerabilidade e fragilidade em seu protagonista, afim de criar esse contraste entre a instituição e a religião.
Por vezes, Lawrence soa ingênuo para um homem que passou a vida dentro desta instituição, contudo, Ralph Fiennes oferece nuances em sua performance que faz do seu personagem um homem complexo, devoto, mas regado de incertezas que o fazem o narrador mais confiável no recinto.

Acima de tudo, Berger constrói uma história política, entre os padres e o reflexo de suas ações no mundo fora dos muros do Vaticano. O jogo de interesse em como a Igreja irá ser representada nos próximos anos com o novo Papa é instigado como uma politicagem suja que exibe o pior do ser humano, ignorando o propósito real de sua reunião, mostrando ao fim que o mistério que a Igreja constrói ao longo dos anos de seus ritos, não se distancia tanto assim do “mundo”, afinal, ambos são regados de ambições cegas e motivações egoístas.
Conclave não hesita em apontar o machismo e a estrutura patriarcal e retrograda da instituição. Sendo o rosto para a denúncia da invisibilidade do papel essencial da mulher na religião, Isabella Rossellini vive uma freira impiedosa e imbatível, vivendo a margem da religião, a atriz conquista silenciosamente sua indicação a Melhor Atriz Coadjuvante no Oscar deste ano com louvor.

Não poderia terminar este texto sem repudiar a ausência de Conclave na categoria de Melhor Fotografia no Oscar. Apesar de ter sido indicado, merecidamente, a Melhor Direção de Arte, o trabalho de Stéphane Fontaine não deveria passar despercebido nesta edição da premiação. Mesma diretora de Capitão Fantástico e Jackie, Fontaine trabalha em conjunto com Berger em uma obra que exprime a magnitude e distanciamento da Igreja Católica dos fiéis (e não fieis que assistem) pela construção de imagem quase simétrica e paralela as falsas aparências que eles tendem a manter.
Conclave explora o mistério que habita ao redor do Vaticano enquanto constrói uma trama crítica pertinente aos debates atuais. Em uma trama quase que investigativa, e definitivamente política, o enredo principal não se mantém medíocre ou monótono, na verdade, surpreende em criar uma constância de interesse crescente do público pela história.
Nota: 4,2/5