O gênero coming of age já nos rendeu grandes clássicos do cinema, contando história sobre amadurecimentos e transição de uma fase da vida para outra “Nintendo e Eu” destrincha este gênero de forma tão pessoal e crível que carrega consigo o potencial para marcar o cinema filipino.
Com a direção de Raya Martin, o longa é uma viagem nostálgica aos anos 90 e utiliza os jogos da Nintendo como ferramenta ilustrativa da transição da infância para adolescência. No filme, conhecemos Paolo e seus amigos, acompanhamos suas aventuras em novas descobertas durante o verão à medida que crescem.

O roteiro assinado por Valerie Castillo Martinez aposta em abordar descoberta da sexualidade, do amor, a amizade e as tensões familiares. Utilizando de suas próprias memorias, a roteirista introduz também um evento histórico do país para conduzir a trama: a erupção vulcânica de 1991. O mais interessante é que, além do fator cômico que as “quase erupções” fornecem, é possível ver que a direção do longa escolhe evidenciar este evento em momentos em que a infância se afasta cada vez mais dos personagens, como se fosse a erupção da puberdade ou o rompimento com a inocência.
Com 1 hora e 39 minutos de duração, “Nintendo e Eu” apresenta três núcleos familiares distintos. A desigualdade social, as oportunidades e os caminhos pelos quais eles irão ter que escolher nos próximos anos também é um tópico abordado entre os dilemas mais juvenis. Bem como, perceber que todas crianças do elenco principal são criados por mães solteiras e como isso reflete em suas vidas.

Apesar de ter alguns tópicos bastante intensos, o filme não é denso ou difícil de ser assistido. Com uma atmosfera mais leve, de descoberta e de antecipação para uma nova fase da vida, “Nintendo e Eu” é quase como um retrato real da puberdade. Um dos coming of age mais reais que assisti até hoje, seja pela sua fotografia ou os tópicos que escolhe abordar e como falar sobre. O longa inclui também coisas singelas como a preocupação dos meninos em ter uma vida sexual ou da insegurança da única menina do grupo de não ser vista como as demais.
O desempenho do elenco é magnífico, e tudo graças a dinâmica e química que os quatro protagonistas compartilham entre si. Um grupo tão distinto em personalidades e histórias individuais, faz com que a história se torne mais atrativa e até mesmo inesperada. Entre lendas urbanas, confidências e paixonites, o grupo compartilha de uma parceria e cumplicidade invejável, que nos faz ficarmos apegados a eles sem nenhuma dificuldade.
Talvez o maior defeito do longa seja a tradução do seu título. Originalmente chamado de “Death of Nintendo” (trad livre: A Morte do Nintendo), o filme intitulado deste modo fica mais fácil de entender previamente sobre o motivo do jogo estar presente, no entanto, do jeito que foi traduzido para o cinema brasileiro pode causar confusão no espectador que espera um filme que tenha a Nintendo como pilar da história e não como uma mera ferramenta narrativa.
“Nintendo e Eu” é um drama que me pegou desprevenida. Apesar de se passar nas Filipinas, acredito eu, que conversa muito com a realidade de muitos brasileiros e por isso pode se tornar uma boa aposta para o nosso mercado do audiovisual – caso passar pela barreira do preconceito linguístico. Ainda que tenha certas influências, como o clássico Conte Comigo, o filme acha sua identidade visual e narrativa com facilidade e nos presenteia com uma obra que utiliza da Nintendo como ponto de encerramento de uma fase sem preocupações.
Exibido primeiramente em 2020 na Mostra Generation Kplus, uma seção do Festival de Berlim, o filme estreia nesta quinta-feira, 27 de abril, nos cinemas brasileiros.
Nota: 4/5