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CRÍTICA | Zico, O Samurai de Quintino: documentário emociona, mas cai no tom chapa branca

Todo clube tem jogadores marcantes, tem seus ídolos, mas tem aquele cara que é o maior da história do clube, que existe um time antes e depois. Esse jogador para o Flamengo é o Zico.

Zico, O Samurai de Quintino traz um olhar original sobre a vida e a carreira de Arthur Antunes Coimbra em diversas dimensões a personalidade única de um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro. Navegando pelo arquivo pessoal do craque, trazendo imagens inéditas, o filme costura histórias e personagens de sua trajetória de ídolo no Flamengo, na Seleção e no Japão.

O filme é dirigido por João Wainer, um documentarista experiente em retratar personalidades na tela, tendo obras como Larissa: O Outro Lado de Anitta e Elis & Tom, Só Tinha de Ser com Você. O longa também conta com o roteiro de Thiago Iacocca, que também tem experiências em documentários, como Democracia em Vertigem. Mesmo os dois tendo uma trajetória já sólida como documentaristas, Zico, O Samurai de Quintino cai no atual problema de filmes biográficos e documentários de personalidades: um clima chapa branca em que o personagem central é uma figura exemplar e sem grandes camadas humanas.

No filme a todo tempo Zico é uma figura glorificada, e os poucos erros que cometeu na carreira foram apenas para fazê-lo crescer ainda mais. É indiscutível que ele mudou o patamar do Flamengo trazendo a Libertadores e o Mundial em 1981, e uma década depois faria o Kashima Antlers se tornar um dos maiores times do Japão. Mas os seus fracassos pela seleção brasileira, por exemplo, são amenizados e colocadas justificativas de lesão e falta de entrosamento.

Zico, O Samurai de Quintino explora também o âmbito familiar do ex-jogador. Desde a sua infância e sua relação com os pais e irmãos, até a atualidade e seu relacionamento com os filhos. Foi no âmbito familiar que o documentário nos trouxe os dois momentos de maior drama, e que poderiam ser melhor aproveitados. O primeiro foi sobre o irmão do Zico, Fernando Antunes Coimbra (conhecido como Nando), que foi perseguido pela ditadura sendo considerado “subversivo” por participar do Programa Nacional de Alfabetização, idealizado por Paulo Freire. Nando também era jogador de futebol e teve que se mudar para Portugal para fugir da perseguição. É especulado que a não convocação de Zico para as Olimpíadas de Munique em 1972 foi em decorrência a perseguição política a Nando, que atingiu seus familiares.

O outro momento já é mais atual, em um relato do filho mais novo de Zico, o Thiago Coimbra. Ele relata como foi difícil crescer sem a presença do pai, que já era um fenômeno durante a sua infância, chegando a comemorar a eliminação do Brasil na Copa de 1986, porque o pai voltaria mais cedo para casa.

Se o filme conduz bem a transição entre carreira e família, não podemos dizer o mesmo da temporalidade. O filme começa em 1991, com Zico chegando para jogar no Japão, depois vai para a sua infância em Quintino, no Rio de Janeiro, justificando o título do documentário. A partir daí o longa fica nessa dança de vai e vem na linha do tempo, o que parece ser interessante acaba se perdendo ao longo do tempo. O filme não fecha blocos para transitam entre o passado e futuro, deixando confuso para o espectador sobre o que certas falas retratam ou de que ano se está falando tal acontecimento.

Zico, O Samurai de Quintino é um filme feito para emocionar. Uma homenagem para um dos maiores jogadores do futebol brasileiro, que atingirá com muito mais força quem acompanhou sua trajetória e cresceu assistindo aos seus belos gols de falta na televisão. Para as gerações que já o conheceram aposentado ou em fim de carreira, o documentário apresenta um personagem persistente, lutador, mas sem muitas falhas, um exemplo a ser seguido, mas caindo na caixinha da meritocracia e da força de vontade.

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