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CRÍTICA | “Exit 8” e o terror de viver em looping

A vida é feita de ciclos. Você acorda, toma banho, escolhe uma roupa, toma café. Coloca um fone de ouvido, pode ser um podcast, uma música, um áudio qualquer ou até barulho de chuva e segue. Trânsito. Trabalho. Dez, doze, quatorze horas dedicadas a repetir o mesmo roteiro. Quando percebe, é quarta-feira, 15h, e surge aquela pergunta meio automática: “que dia é hoje mesmo?”

É nesse looping quase invisível que Genki Kawamura constrói Exit 8, adaptação do jogo da Kotake Create que ganhou destaque no Festival de Cannes 2025. E talvez o mais inquietante seja perceber que o filme não exagera a realidade ele só a revela.

A estrutura narrativa é dividida em três perspectivas: O Teste – O Homem Perdido, Inferno – O Homem que Anda e Ele – O Garoto. Três formas de existir dentro do mesmo corredor, do mesmo espaço, do mesmo ciclo… mas nunca da mesma maneira. Cada um experiencia o looping com regras próprias, medos próprios, e níveis diferentes de consciência sobre o que está acontecendo.

E tudo gira em torno de uma instrução simples e aterrorizante:

“Não negligencie nenhuma anomalia.
Se encontrar uma anomalia, recue imediatamente.
Se não encontrar nenhuma anomalia, não recue.
Saia pela Saída 8.”

O conceito parece simples, quase mecânico. Mas Exit 8 transforma isso em tensão pura.

Cada dobra de corredor carrega uma expectativa silenciosa: será que agora vai? Será que finalmente avançamos? E quando o número não muda — ou pior, quando você percebe que deixou passar algo — a frustração vem junto, quase física. O filme não apenas mostra o erro, ele faz você sentir o erro.

Existe algo profundamente desconfortável na forma como o longa te obriga a observar. Nada pode passar despercebido. Um detalhe mínimo, uma mudança sutil, um elemento fora do lugar qualquer coisa pode ser o gatilho que te condena a recomeçar. E nisso, Kawamura constrói um terror que não depende de sustos, mas de atenção.

Exit 8 funciona como uma metáfora direta da vida contemporânea: a repetição automática, a sensação constante de não sair do lugar, a ilusão de progresso. Você anda, anda, anda… mas será que realmente está avançando?

No fim, Exit 8 não entrega respostas fáceis, nem uma saída confortável. Ele te deixa com a sensação de ter vivido um pesadelo acordado daqueles que não terminam quando você abre os olhos, porque continuam existindo na rotina do dia seguinte.

Talvez a gente não esteja em um corredor infinito de metrô.

Mas a pergunta permanece: quantas vezes você já passou pela mesma “saída” sem perceber?

Exit 8 chega aos cinemas de todo o Brasil em 30 de abril — e a única certeza é: depois dele, você nunca mais vai atravessar um corredor do mesmo jeito.

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