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CRÍTICA | “A Noiva!”: romance brutal sobre controle, identidade e rebelião

Se em 2025 ganhamos uma releitura de Frankenstein pelas mãos de Guillermo del Toro, em 2026 é a vez da Noiva de sua criatura ganhar vida sob o olhar de Maggie Gyllenhaal. Em A Noiva!, o horror deixa de ser apenas estético e se torna político: o filme flerta com o real ao abordar feminicídio, controle e a faísca de uma rebelião feminina. Arrisco dizer que, se Coringa, estrelado por Joaquin Phoenix, dialogava diretamente com a frustração masculina, A Noiva! nasce como um grito que ecoa entre mulheres.

A Noiva!” se passa em Chicago na década de 1930 e acompanha a história de origem da Noiva (Jessie Buckley), uma jovem assassinada que ganha vida novamente. Sua trágica morte é encomendada pelo monstro do cientista Frankenstein (Christian Bale) que, solitário, pede por uma companhia para a Dr. Euphronius (Annette Bening). Os dois, então, trazem de volta à vida uma jovem e, assim, nasce uma nova criatura: a Noiva. Logo, a jovem descobre um mundo marcado por obsessões e violência, além de se envolver num romance selvagem e explosivo.

The Bride! First Reactions From the Premiere

Com energia de Bonnie e Clyde, A Noiva! constrói simultaneamente uma narrativa de apagamento e de descoberta identitária. Em seu segundo filme como diretora, Maggie Gyllenhaal demonstra domínio de linguagem e intenção. E encontra em Jessie Buckley sua intérprete ideal. Magnética, imprevisível e vulnerável, a atriz transita entre a Noiva e Mary Shelley — nos monólogos em preto e branco — com uma potência indiscutível. Se Hamnet não lhe deu o grande papel da carreira, aqui ele finalmente chega.

Jessie Buckley é a alma do filme — isso é incontestável. O humor, a tensão, o drama e até o afeto são ditados por sua performance. É fácil se comover com sua personagem, rir com ela, sentir por ela. Gyllenhaal cria uma figura tão cruamente dúbia: ao mesmo tempo desejada e rejeitada, objeto e sujeito, criação e criadora de si. A atriz entrega uma performance visceral em uma história que questiona a todo momento o direito da mulher à escolha — inclusive depois da morte.

Christian Bale, por sua vez, compõe um monstro que herda não apenas o sobrenome do criador, mas também seu complexo de Deus. Assim como na obra original, há nele a ilusão de controle absoluto sobre a vida e sobre o destino do outro. Ao criar uma companheira para si, repete os erros do passado: é movido pelo desejo, pelo ego e pela necessidade de posse. Sua existência espelha a lógica patriarcal: por meio da coerção e do apagamento da identidade, autorizando que sua noiva seja apenas aquilo que lhe foi predeterminado.

Visualmente, o filme dialoga com produções como Coringa: Delírio a Dois e Cruella, mas não depende dessas referências para existir. Sua protagonista é forte o suficiente para sustentar identidade própria. O roteiro de Maggie Gyllenhaal pode não ser estruturalmente revolucionário, mas encontra originalidade no tom: um humor afiado, rápido e sagaz, equilibrando brutalidade e ironia.

A identidade feminina atravessa toda a narrativa. Não apenas porque a criatura não é uma simples versão feminina de seu criador, mas porque as figuras de autoridade — a doutora, a detetive — também são mulheres. Gyllenhaal evidencia que, seja na década de 1930 ou no século 21, o reconhecimento feminino ainda depende da necessidade constante de provar valor.

Não sei se é cedo demais para afirmar, mas, neste momento, enquanto finalizo esta crítica, o sentimento que aflora em mim é o de que A Noiva! nasce como um clássico instantâneo. O olhar feminino sobre uma relação que surge do controle e da coerção transforma o filme em uma obra sensível e, ao mesmo tempo, brutal em seu discurso.

O filme está em cartaz nos cinemas de todo o país.

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