Criada por Gabriel G. Sampaio, a HQ Tecnomaquia: Robôs vs Androides expande ainda mais seu universo de Exídium. O quadrinho tem como objetivo apresentar ao leitor os acontecimentos da Guerra Galática, mas indo muito além de apenas contar uma história. Gabriel se aproveita do seu universo de ficção científica e traz uma forte crítica social.
Tecnomaquia: Robôs vs Androides nos leva ao planeta humano de Íx’har, onde as famílias da Corte possuem as maiores fábricas de Robôs. Por outro lado, o povo do planeta sofre com uma miséria extrema e com a falta de emprego. É neste cenário brutalmente desigual que um mecânico problemático vai se aliar a uma guerrilha de Androides e iniciar uma jornada que vai transformar a galáxia para sempre.

Para além de Gabriel G. Sampaio, também trabalham na obra os artistas Aline Martins, Salviano Borges e Ryan Nascimento. O autor, que já publicou diversos livros, revelou o porquê desta vez utilizar a nona arte. “Escolhi trabalhar com HQ porque percebi que esse formato acessa públicos mais diversos. Em eventos e feiras, percebi o quanto os quadrinhos despertam o interesse de quem ainda não tem o hábito da leitura”.
Muito possivelmente, essa afinidade do autor com a literatura, lhe deu um dos maiores problemas de Tecnomaquia, o excesso de texto. Ao trabalhar com uma linguagem tão visual, é preciso ter cuidado com o uso de exposição textual, o leitor está ali para ver o conjunto de texto e arte, o famoso “não conte, mostre”. Por muitos momentos durante o quadrinho, os quadros se enchem de falas que sobrepõem a arte. Utilizar uma quantidade tão grande de diálogos pode deixar a leitura mais lenta e cansativa, atrapalhando o ritmo que foi imaginado para a HQ.
Ainda pensando na parte textual, outro ponto que Tecnomaquia deixa a desejar é a diagramação dos balões. Faltou uma revisão mais minuciosa para manter a linearidade de tamanho de fontes, formatos de balões e até mesmo da disposição do texto dentro de tais, para que a leitura fosse mais fluida. Em contraponto, gosto da experimentação que o autor faz em intercalar os quadrinhos com a literatura, trazendo pequenos contos nos respiros da história maior. Essa mistura de linguagens já foi reconhecida e premiada (por exemplo, Estados Unidos da África, que venceu uma categoria do Prêmio HQMix em 2024), e pode ser muito bem explorada por Gabriel G. Sampaio na continuidade do seu universo.

O grande trunfo de Tecnomaquia é a sua crítica. Incisiva, mas não panfletária, a HQ consegue trazer duas grandes reflexões ao leitor. A primeira é uma crítica social, o confronto nasce da união da classe oprimida, que cansada de ser subjugada, faz uma revolução para se libertar das opressões dos mais ricos. Aqui o autor coloca em cheque a busca pelo lucro e pelo desenvolvimento tecnológico, que deixa de lado a humanidade dos seres.
A outra crítica vem para o lado tecnológico de fato. Até onde vamos chegar com a ascensão das máquinas, a dependência da Inteligência Artificial e afins. Gabriel inicialmente coloca as máquinas nos lugares de serventes, são criados pelos humanos (e alienígenas) para fazerem seus trabalhos braçais e violentos, porém as máquinas se tornam os opressores, e é contra isto que os Androides (o grupo subjugado) vai lutar.
Apesar do teor distópico da obra, Gabriel é otimista em conseguirmos chegar a um futuro melhor através da união, da luta e da compaixão. No todo, Tecnomaquia: Robôs vs Androides é uma obra que vai além do entretenimento, traz reflexões sobre o mundo em que vivemos em uma realidade ficcional futurista. Também é interessante que Gabriel, até enquanto professor, ao final da obra traz uma parte com exercícios interpretativos, para que a HQ possa ser usada em sala de aula por outros professores também.