Esse texto não contém spoilers
Será que uma das figuras mais populares do imaginário coletivo, quando se pensa no que é ser um ideal de super-herói — que já ganhou inúmeras versões, seja no cinema, na TV ou nos quadrinhos — ainda seria capaz de se reinventar e gerar conexão em uma era como a nossa? O novo Superman, estrelado por David Corenswet, chega aos cinemas nesta quinta-feira (10) provando que, sim, Superman é e sempre será o herói número #1, dispensando qualquer rivalidade entre editoras.
Bebendo de algumas referências de Star Wars e das animações da Liga da Justiça, o novo filme Superman, dirigido por James Gunn, acompanha Clark Kent (Corenswet) tentando equilibrar sua origem kryptoniana com sua vida humana. Enquanto enfrenta uma sociedade que questiona seus ideais, ele encara novas aventuras ao lado de personagens icônicos como Lex Luthor, Lois Lane, Lanterna Verde, Senhor Incrível e Mulher-Gavião.

Uma coisa é inegável e irrefutável: James Gunn resgata a humanidade de um ser extraterrestre em seu primeiro filme oficial como chefão da DC Studios. Um feito que, para os leitores de gibis, seria algo óbvio e já esperado — mas, em retrospecto à filmografia do herói… bem, isso é uma vitória e tanto. O senso idealista, sonhador e genuinamente interessado em ajudar as pessoas está tão presente que chega a ser latente.
Superman é um filme extremamente político, e Gunn não tenta disfarçar isso. Além de lidar com a rejeição que o herói sofre diante da falta de controle sobre sua imagem e poder (e não falo apenas de superpoderes, mas da sua influência e impacto social), o cineasta se aproveita de conflitos reais para construir sua ficção. Invasões a países com grande poder bélico, financiadas pelos Estados Unidos, te soam familiares? Nem precisa ser bom entendedor: Gunn não se limita a meias palavras ao inserir o herói em uma realidade que se parece bastante com a nossa.

O desempenho de David Corenswet é crucial para que as ideias de Gunn atinjam o público como um soco. Além do óbvio (sua transição entre os alter egos Clark e Superman), Corenswet vive alguém que nos desperta compaixão, afeto, carinho. Nos faz lembrar por que começamos a gostar de super-heróis na infância. O ator mergulha na vulnerabilidade do personagem, carrega o estigma de ser amado e rejeitado como um imigrante alienígena — mesmo vestindo o azul e vermelho icônicos.
O sentimento de rejeição anda de mãos dadas com a veneração ao símbolo que carrega no peito, entregando o equilíbrio perfeito a uma figura brutalmente humana e, por isso mesmo, desejável para nossa realidade.

Se Gunn acertou ao escalar Corenswet como Superman, seu feito se refletiu também nos coadjuvantes. Ouso dizer que Rachel Brosnahan, como Lois Lane, e Nicholas Hoult, como Lex Luthor, formam uma das melhores escalações dos últimos tempos.
Brosnahan conduz uma jornada voraz e sagaz para sua personagem, enquanto Hoult está simplesmente brilhante como um vilão assustadoramente semelhante à nossa realidade — sem abandonar o lado mais “cartunesco”. James Gunn não tem medo de revelar o pior de um bilionário em Luthor: ele é sádico, cruel, maligno, obcecado e completamente cego pela raiva. Não há explicações, passados trágicos ou justificativas. Ele é o mal encarnado, por puro prazer, por suas ambições e desejos.

Entre a ação típica do gênero, conflitos políticos e o supercão, Superman também não esquece do romance entre Lois e Clark/Superman. A dinâmica do relacionamento não guarda espaço para segredos ou meias palavras. Uma jornalista segura e convicta de suas decisões, Lois não teme confrontar o homem mais poderoso do planeta — mesmo sendo seu namorado.
Como a relação está no começo, Gunn intercala momentos de “lua de mel”, a estranheza do novo e os confrontos ideológicos entre o casal. Isso enriquece a trama e revela um lado diferente de Superman: o herói que não se vê como um deus e que precisa da razão de Lois para equilibrar sua emoção ao tomar decisões.

Além do trio maravilha, quem também rouba a cena é o eterno supercão: Krypto. O cachorro em CGI promete ser o personagem mais popular e amado do ano. Responsável por arrancar risadas da plateia e gerar tensão em momentos de perigo, Gunn traz toda sua expertise com animais da Marvel e aprimora isso aqui — ainda bem, sem a parte triste.
Outras participações como Lanterna Verde, Senhor Incrível e Mulher-Gavião funcionam bem, mas não se destacam muito além das cenas em grupo. A equipe serve mais como ambientação do universo, em que a existência de meta-humanos é normalizada e até explorada por iniciativas privadas. Outros personagens da nova fase da DC também aparecem para consolidar a construção de um mundo de super-heróis.
![Film/TV] Some shots from the Superman (2025) Trailer : r/DCcomics](https://i.redd.it/film-tv-some-shots-from-the-superman-2025-trailer-v0-rornuca2mw7e1.jpg?width=1920&format=pjpg&auto=webp&s=9c0903e298d69a888148c2fd1313307653189cf7)
Apesar de algumas falhas na computação gráfica que ficam evidentes quando expostas à luz direta, a direção de fotografia de Henry Braham eleva o filme a um nível de adoração ao personagem. Seja no foco constante ao símbolo, na atmosfera clara e jornalística do Planeta Diário ou nos momentos de tensão e angústia, Superman o tempo todo nos lembra da força de sua história e da imortalidade de seu legado que atravessa gerações.
Superman é o tipo de filme que me deixou entorpecida, anestesiada e sonhando acordada assim que os créditos subiram. Resgatou a sensação de assistir a um filme de super-herói com personalidade e identidade — que não tem medo de ser chamado de brega pela cueca por cima da calça, nem de ser considerado infantil por conta do gênero. A esperança caminha lado a lado com uma aventura inesquecível e a promessa de um futuro tão brilhante quanto este presente.
Nota: 5/5








