Premiações como o Oscar são fascinadas por filmes que enaltecem a cultura estadunidense, os colocando no pódio mais alto dos status quo, auxiliando na manutenção de um ideal a ser almejado, o símbolo falso de esperança de que todos tem a mesma chance de alcançar seu lugar ao sol, afinal é a terra das oportunidades. Bem, “O Brutalista“ caminha na direção oposta, com a boa intenção de contar a história de um imigrante judeu pós segunda guerra mundial, o filme explica a audiência que não importa quão capacitado você é, para eles, você ainda é um imigrante e nenhum outro adjetivo cabe a você além desse.
Com 3 horas e 36 minutos de duração e intervalo de 15 minutos, em tela, a produção é ambientada inicialmente nos anos 40 e acompanha a vida do arquiteto László Toth (Adrien Brody), que junto de sua esposa Erzsébet (Felicty Jones), fogem da guerra na Europa para recomeçar a vida nos Estados Unidos. Enfrentando a pobreza e miséria, a vida do casal muda quando o empresário Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce) contrata o arquiteto imigrante para projetar um grande monumento modernista. Projeto mais ambicioso da carreira de László, a obra irá revolucionar não somente a arquitetura, mas também será responsável por levar a vida do casal a conflitos nunca vivenciados.

“O melhor escravo é aquele que se julga livre.” O roteiro de Brady Corbet e Mona Fastvold constrói ao longo da extensa duração do filme um mundo não tão distante do nosso, apresentando um protagonista que em outro país fora bem sucedido e respeitado, ele escancara que ninguém está ileso do preconceito, da violência e do apagamento social se você não é julgado pertencente àquela comunidade.
A desigualdade é escancarada em diversas formas, seja no tratamento ou na convivência de mundos paralelos, do luxo a miséria, o arquiteto László Toth experimenta o abandono na sua forma física e emocional, procurando amparo nas drogas medicinais e sendo negligenciado de uma identidade. Quando falamos da construção do protagonista, como essa pessoa firme, de personalidade marcante, e até bem humorada, tanto o roteiro como a direção de Brady Corbet não deixam a desejar. Assim, desde dos momentos iniciais, quando a câmera em primeira pessoa exibe a estátua da liberdade de ponta cabeça, é eficiente o modo como a crítica a irrealidade do sonho americano é feita através do personagem principal, contudo, os outros personagens que o rodeiam acabam não tendo a mesma sorte.
A mais afetada pela ausência de história é a esposa do protagonista, vivida por Felicty Jones, que é resumida em narrações em off e uma mera acompanhante debilitada. O triste é que isso reflete no relacionamento dos dois, que não prova ser o que o protagonista antecipava no primeiro ato, enquanto estavam separados. A falta de habilidade em trabalhar com papéis femininos é uma falha perceptível da direção deste longa. Sendo retratadas como meros acessórios narrativos, usadas ao bel prazer, sem propósito a não serem vítimas de uma violência sem fim.

Não tem como negar que visualmente “O Brutalista” é um filme belíssimo. Às vezes, a importância pela estética acaba se sobressaindo a narrativa da trama. Mas, por outro lado, as duas conversam a todo momento. Afinal, a direção de fotografia acompanha a ambição do protagonista pela arquitetura brutalista para refletir na forma como seleciona seus enquadramentos, os jogos de luzes que criam personagens intragáveis ou religiosamente esperançosos, além de, se posicionar politicamente ao falar sobre história, pertencimento e comunidade.
“O Brutalista” é um filme “cara de Oscar”, por vezes presunçoso, mas bem pensado e construído para a Academia se interessar. Sua duração longa vai definitivamente afastar grande parte do público, sendo assim, incapaz de prever seu crescimento ao longo dos anos dentro do gosto popular e, quem sabe, se ele irá sobreviver para além da temporada de premiação.
O filme estreia nesta quinta-feira, dia 20 de fevereiro, nos cinemas.
Nota: 3/5