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CRÍTICA | ‘A Semente do Fruto Sagrado’, entre a denúncia e a fuga

A Semente do Fruto Sagrado (The Seed of the Sacred Fig) chegou aos cinemas brasileiros e está forte na briga pela indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional representando a Alemanha (longa é uma coprodução Irã –  Alemanha –  França). O ganhador do Prêmio do Júri em Cannes conta a história da família de Iman, que foi recém promovido a juiz investigador no Tribunal Revolucionário em Teerã. Para além do pico de protestos contra o regime, Iman também tem que lidar com o seu círculo familiar de uma esposa conservadora religiosa e duas filhas que têm uma afinidade com a causa revolucionária.

Mohammad Rasoulof, roteirista e diretor do longa, utiliza desse núcleo familiar para expor o autoritarismo e violência do regime teocrático do governo iraniano. Quase todo o filme se passa dentro do apartamento da família, em partes para manter uma sensação claustrofóbica e transformar aquele ambiente que deveria ser de acolhimento, em um ambiente hostil após o desaparecimento da arma de Iman dentro da própria casa. O motivo por trás das câmeras da manutenção do longa em ambientes fechados é que o diretor precisou esconder as filmagens, trabalhando em espaços confinados para burlar a censura desenfreada e violenta que artistas sofrem por lá. Rasoulof inclusive já foi preso algumas vezes por desafiar o regime ditatorial teocrático do Irã.

Para demonstrar a violência do mundo exterior, o diretor utiliza imagens de Instagram de páginas que denunciam a violência das autoridades. Ele justifica de forma bem eficaz o uso dessas imagens, colocando em cheque a veracidade das informações passadas pelos veículos oficiais (na televisão) e as jovens filhas se informando por meios alternativos, como o Instagram. O filme em certo momento também denuncia a censura no acesso a internet, citando que as personagens precisam usar VPN para conseguir entrar em alguns sites.

“O mundo mudou, mas Deus não”, é uma das frases ditas por Iman (Missagh Zareh) para justificar a permanência de tradições religiosas, mesmo que elas coloquem as mulheres em um lugar de inferioridade. Iman, na figura do juiz investigador que está dentro do sistema, representa o governo neste âmbito familiar. Ao seu lado tem a esposa Najmeh (Soheila Golestani), que também apresenta comportamentos conservadores e preza pela família, mesmo que algumas atitudes suas para manter essa  composição a façam abdicar de si mesma.

As duas filhas são Rezvan (Mahsa Rostami), a mais velha que já está na faculdade, é vista como a filha rebelde e tem afinidade com as causas dos protestos. No âmbito familiar ela se apresenta como a oposição, a que tenta fazer as estruturas mudarem. A filha mais nova, Sana (Setareh Maleki), por ter apenas 13 anos, é vista como a menina inocente pelos seus pais, que não tem percepção do que está acontecendo no mundo, mas é a que mais sente os conflitos internos e externos.

O filme tem três atos muito bem delimitados: o primeiro vai nos contextualizar naquele universo; o segundo vai trazer os dramas e intrigas daquela família a partir do desaparecimento da arma de Iman; o terceiro chega até a mudar o tom do filme, que sai de uma drama e entra em uma espécie de thriller que deixa muito filme de terror no chinelo.

A Semente do Fruto Sagrado apesar de não ser um filme gráfico, é um filme pesado sobre a violência apresentada. Mesmo sendo um lugar e contexto longe do nosso aqui no Brasil, encontramos similaridades com momentos que já vivemos, e até com aspectos que sofremos hoje, como a ascensão do conservadorismo (que no Irã nunca caiu). O longa chega forte na disputa do Oscar, e mesmo não estando entre os favoritos para levar a estatueta, é um dos mais necessários deste ano.

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