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CRÍTICA | “Babygirl” surfa no pós me too em uma história não convencional

Vinte e seis anos após estrelar o thriller sexual de Stanley Kubrick, “De Olhos Bem Fechados“, Nicole Kidman retorna ao gênero com seu mais novo filme “Babygirl“, da diretora Halina Reijn (conhecida por Morte, Morte, Morte). Em uma dinâmica de poder, o prazer feminino é explorado ao ápice em um filme que foge dos estigmas do olhar masculino e busca uma história moldada pelo efeito do movimento me too.

Na trama, Kidman interpreta Romy, uma renomada empresária que começa a viver um caso extraconjugal com o novo estagiário da sua empresa, Samuel (Harris  Dickinson). Se por um lado o romance representa para ela um processo de descoberta e aceitação dos seus desejos mais sombrios, também coloca em risco tudo o que ela demorou uma vida para construir.

Fugindo da dinâmica de poder convencional, o filme de Reijn coloca Kidman em um papel de destaque e de emancipação feminina, exibindo o oposto do que é exigido e esperado de uma mulher. Babygirl inicia exibindo o tom que predominará as 1 hora e 48 minutos do filme, o prazer da protagonista ecoando pelas caixas de som do cinema, sem nada explícito, mas focando em sua reação, anseios e frustrações de uma relação morna com seu marido. A partir disso, a história passa a apresentar a protagonista como uma CEO de uma empresa tecnológica (mercado dominado por homens), enquanto equilibra com a sua vida de mãe. O poder exalando em todas as áreas de sua vida, sendo voz ativa e mandante em casa e no trabalho. E é neste ponto que conhecemos o estagiário intrigante, Samuel.

Harris  Dickinson surge silenciosamente, questionando, instigando e provocando discretamente sua companheira de tela. Seu personagem gera um certo fascínio pelo mistério de suas intenções. Há uma certa margem de desconfiança pairando sob o ar quando ele está por perto, afinal, em certo ponto há um diálogo que ele afirma deter de um tipo de poder nessa relação, iniciando uma briga por tal vantagem.

Halina Reijn's 'Babygirl' as homage to past erotic dramas - Los Angeles  Times

A partir do momento que Romy e Samuel passam a se relacionar sexualmente, em motéis baratos e hotéis luxuosos, Babygirl explora o prazer feminino advindo da troca de papéis. Enquanto, Rumy decide o que quer, manda em quem quiser, com Samuel ela desfruta da submissão. E, se você espera que Babygirl seja degradante e piegas quando o assunto é sexo, está totalmente enganado. A direção de Reijn não permite que Nicole Kidman seja sexualizada, mesmo com este gênero de filme, seu apelo sexual não está para o desejo do outro, e sim para o seu próprio. Seu rosto, seu som, seu corpo serve apenas para contar uma história de permissão, submissão e poder.

A tensão que se cria quando a relação entre os dois avança é o suficiente para te prender no assento. O silêncio rasga em certos momentos o ar que o espectador prende enquanto assiste momentos intensos entre os protagonistas. E eu não falo só as cenas picantes! Confrontos e dilemas são apresentados em tela em uma dosagem certa para manter a atenção do espectador a todo momento, envolvendo tanto o lado profissional quanto pessoal da protagonista.

Nicole Kidman Is 'Babygirl' in First Images From A24's Steamy New Drama

A moralidade é colocada à prova nesta trama, o feminismo, a ética e os comportamentos construídos pós movimento anti assédio, se fazem presentes de forma sutil e, mais para o fim, de forma mais assertiva e direta. Ora sendo colocada contra parede, ora tomando as rédeas da situação, Babygirl apresenta uma protagonista no mínimo interessante de ser observada e estudada. Afinal, ela é transgressora ou mais uma ferramenta para a manutenção do poder estimulado pela imoralidade?

Assim, Babygirl conta uma história de como a dinâmica de poder comandado por uma mulher acarreta em uma série de situações que põe em risco sua competência e bom senso, nos levando a questionar se o mesmo aconteceria se a protagonista fosse homem (ou seja, em todos os filmes do mesmo gênero) e, bem, a resposta a gente já sabe. Afinal, Babygirl nos mostra que são dois pesos e duas medidas, mas nesta história comandada por Nicole Kidman a manutenção do seu poder é certa.

Indicado ao Globo de Ouro de 2025 e uma das apostas para o Oscar desse ano, Babygirl está em exibição nos cinemas de todo o país.

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