Após 24 anos, Chicó e João Grilo voltam as salas de cinema para sobreviver a mais uma aventura no vilarejo de Taperoá. Com o retorno de Guel Arraes na direção, ao lado de Flavia Lacerda, “O Auto da Compadecida 2″ traz de volta Matheus Nachtergaele e Selton Mello a seus papéis icônicos em uma jornada nostálgica e, que apesar de ser ambientado em um passado distante, dialoga facilmente com a sociedade atual.
Em “O Auto da Compadecida 2“, João Grilo retorna para a cidade de Taperoá após 20 anos sumido e reencontra com seu fiel escudeiro Chicó, que carrega adiante a história de que Nossa Senhora operou um milagre e ressuscitou o amigo. João Grilo, então, agora é considerado uma espécie de santo e seu status de celebridade chama a atenção especial dos dois políticos mais poderosos da região, querendo utilizá-lo como cabo eleitoral. Vendo toda essa comoção como uma oportunidade para finalmente enriquecer, João Grilo organiza um de seus famosos trambiques.

Como a vida real, o filme também dá um salto temporal em sua narrativa e é posicionado no momento de reencontro do elenco principal. Enquanto Chicó sobrevivia fazendo uma carreira de contador de histórias, João Grilo viveu um mundo de aventuras pelo Brasil (que daria facilmente um filme só disso). No momento em que os dois se encontram é como se o tempo não tivesse passado, Matheus Nachtergaele e Selton Mello desaparecem e dão lugar aos seus personagens que ao longo dessas duas décadas construíram um lugar especial no coração dos brasileiros.
Matheus Nachtergaele tem a oportunidade de elevar o seu papel, e para além de trambiques, ganha a oportunidade de interpretar 3 personagens nesta obra. Há sensibilidade e potência em sua performance como João Grilo, diabo e Jesus. Em meio a um novo dilema sobre moralidade, entre o certo e errado, seu enredo é posicionado entre o poder de polícia e a mídia, cravando uma trama que conversa muito bem com os dias atuais.

Em contraponto, Selton Melo conduz seu personagem com leveza, bom humor e um toque dramático essencial para a comoção do público. O ator, para mim, é um dos destaques do filme. A sensibilidade de um homem ferido pela vida e pelo tempo, combinado com a garra de sua sobrevivência, resulta em um personagem curioso e inspirador. Melo é o que mais se beneficia pelo texto do roteiro de Guel Arraes e Adriana Falcão, que unem todos os elementos que amamos do Chicó em uma sacada cômica-emotiva genial. Ademais, seu romance com Rosinha (vivida pela atriz Virginia Cavendish) ganha uma nova dose de maturidade e aprendizado, sem perder a doçura juvenil que os dois trouxeram no primeiro longa.
As novas adições em “O Auto da Compadecida 2” contribuem para a história que promete entregar algo nostálgico e que honre o primeiro filme, ao mesmo tempo em que quer fincar uma nova jornada original e criativa. Eduardo Sterblitch, Humberto Martins e Fabiula Nascimento preenchem algumas lacunas de personagens que não retornaram para este novo filme. Apesar de trazerem um ar mais atualizado e revigorante para a obra, eles ficam apenas na promessa. São mal aproveitados e suas histórias estagnam no ar apenas com a possibilidade do que poderiam ter sido.

Se no primeiro filme tivemos a grande Fernanda Montenegro como a Maria, mãe de Jesus, neste filme ela é representada pela Thais Araújo. A sua caracterização é um dos pontos altos da sua aparição no longa, a forma como o seus longos cabelos crespos moldam sua figura e o penteado trançado que contorna seu rosto abre margem a interpretação de que ela não é apenas a mãe dos católicos, abrangendo diferentes etnias e culturas. Contudo, sua participação infelizmente só agrada até esse ponto, toda sua performance é exagerada e incompatível com o ambiente. Infelizmente, Araújo entrega uma Nossa Senhora caricata e emotiva para além da conta.
Outra coisa que deixa a desejar na história em si é tanto a montagem como a edição do filme, que causam uma estranheza para quem for assistir no cinema, já que o formato se assemelha ao de uma minissérie de tv. O cenário, que agora mudou para um estúdio, também contribui para essa estranheza, mas adiciona uma pitada do lúdico em momentos que a história precisa.

Por fim, “O Auto da Compadecida 2” consegue (a muito custo) não cair na maldição de péssimos revivals, mas não consegue entregar nada do que já não havíamos visto antes no filme dos anos 2000. Todo arco narrativo se assemelha bastante com a trama anterior, tornando a história um pouco genérica. Todavia, ainda bem, mantem a qualidade do elenco ao máximo, trazendo de volta rostos familiares e talentosos para o mainstream.
O filme estreia nos cinemas no dia 25 de dezembro.
Nota: 3/5