Através de uma relação incomum entre avó e neto, “Como Ganhar Milhões Antes Que A Avó Morra” constrói uma história emocionante repleta de reflexões sobre ciclos viciosos e como a ingratidão e ganância cega e desumaniza laços familiares. Com a direção de Pat Boonnitipat, o filme estreia hoje (19) nos cinemas de todo o Brasil.
Neste drama tailandês, conhecemos ‘M’ (Putthipong Assaratanakul), movido pelo desejo de uma herança multimilionária, começa a cuidar de sua avó (Usha Seamkhum), que está com uma doença terminal. No entanto, ganhar o favor de sua avó não será uma tarefa fácil e ele não é o único que está de olho no dinheiro.

Com um pouco mais de 2 horas de duração, “Como Ganhar Milhões Antes Que A Avó Morra” apresenta uma avó forte, destemida, com um passado árduo e um presente ainda mais penoso. Logo no inicio do filme descobrimos que ela irá travar nas horas a seguir uma batalha contra um câncer terminal. O contraste da sua fragilidade que é exibida na segunda parte do filme com a fortaleza que ela demonstrou ter nos minutos iniciais é um dos grandes fatores para a sensibilização e comoção do espectador nessa história. Sem apelar para narrativa sensacionalista, a progressão de seu drama não se dá apenas pela sua doença, mas como ela passa a enxergar seus descendentes dentro deste novo cenário e dinâmica familiar.
Em contraponto a isso, conhecemos também M, o único neto homem da família. O adolescente enxerga na doença da sua avó uma oportunidade de enriquecer de maneira fácil e rápido. Inspirado por sua prima que cuidou de um ente querido próximo da morte e se tornou a grande herdeira da fortuna, M planeja fazer o mesmo. Movido por interesse financeiro, ganância e sem escrúpulo algum, o personagem se infiltra na vida da avó, ao ponto de conhecer sua rotina e ela como ser humano conforme a convivência dos dois se intensifica.

A partir de uma relação que por um lado é movida por interesse e pelo outro é pela desconfiança de uma mulher abandonada, o filme cria um vínculo verossímil diante da troca de experiências. Enquanto a avó experimenta viver de forma mais leve na companhia do seu neto, desfrutando uma companhia diária pela primeira vez após muitas décadas, o neto enxerga a solidão invisível de sua avó, não só no sentido físico da palavra, mas do abandono emocional daqueles que compartilham o mesmo sangue mas não a mesma consideração.
A empatia surge dos dois lados, e é isso que faz “Como Ganhar Milhões Antes Que A Avó Morra” um drama belo e íntegro. Ainda que esteja no final de sua vida, a personagem ainda demonstra disposta a aprender e refletir sobre suas ações. Um dos diálogos mais fortes do filme, após uma briga com seu irmão mais velho, provoca uma reflexão e arrependimento instantâneo na personagem, que enxerga que todo mal que lhe afligiu quando mais nova (pelo machismo da cultura) ela repercutiu no fim de sua vida com a sua filha. Para além do arrependimento, o fim de sua vida também é marcado por reconciliações e gratidão dos laços restaurados.

“Como Ganhar Milhões Antes Que A Avó Morra” é daquele tipo de drama que você vai passar a primeira hora nutrindo uma raiva imensurável dos personagens do filme, mas conforme a história progride as lágrimas são inevitáveis e a emoção toma conta de todo ambiente. A solidão é palpável, a dor é empática e, por fim, a gratidão é motivadora. Ao fim, o longa instiga em nós, espectadores, uma reflexão sobre nós mesmos e nossas relações familiares, afinal, você consegue enxergar a solidão dos seus entes queridos?
Esse filme é definitivamente um “must see” no cinema, um dos escolhidos para representar a Tailândia no Oscar de 2025, o filme nasce como um clássico instantâneo, que utiliza a ambientação de sua história, através da direção de fotografia sublime, e a sua cultura como meio para dialogar de forma universal com quem assiste não importa da onde você vem.
Nota: 5/5