Indicado a Melhor Filme Internacional no Oscar de 2024, pela Itália, Eu, Capitão foi exibido na 19ª edição do Festival de Cinema Italiano no Brasil. O longa traz a história de dois primos senegaleses, que em busca de uma vida melhor, saem de Senegal e vão clandestinamente em direção à Itália.
Casos de filmes como este sempre me deixam inquieto em como classificar a nacionalidade de um filme. Eu, Capitão conta a história de dois adolescentes senegaleses, sobre o êxodo africano e que se passa totalmente em África, porém por ser financiado e dirigido por um italiano (Matteo Garrone), ele é classificado como um filme europeu.
Olhando a obra por si só, o filme é uma peça interessante. A sua intenção é denunciar e escancarar o sofrimento das pessoas africanas que gastam todas as suas economias e passam por condições desumanas para chegar até o utopia de uma vida melhor no continente europeu. Dentro do próprio filme é posta essa discussão, de que a vida pode não ser tão melhor assim na Europa, isso quando as pessoas conseguem chegar até o velho continente.

No filme acompanhamos Saydou (Seydou Sarr) e seu primo, Moussa (Moustapha Fall) – que estão exímios em suas atuações-. Os dois sonham em ser grandes músicos e acreditam que em Senegal não conseguiram atingir a fama, então trabalham para conseguir juntar dinheiro e escondidos partem na jornada até a Itália. Desde o início da jornada vemos pessoas se aproveitando da ingenuidade dos garotos para arrancar-lhes dinheiro nesta viagem, tanto no mundo clandestino, quanto das figuras de autoridade corruptas.
Superrealismo posto no sofrimento dessas pessoas que estão em busca de um sonho também dá espaço, em pontuais momentos, a um surrealismo no imaginário de Seydou que tenta fugir daquele ambiente de dor e ir encontrar esperança para salvar aquelas pessoas ou voltar para casa. O longa também abre espaço para uma noção de comunidade, na qual pessoas refugiadas se ajudam entre si, e é graças a isso que Seydou e Moussa conseguem sobreviver.

Se fossemos ver Eu, Capitão por si só, é um bom filme e uma obra bem interessante que valida sua indicação ao Oscar, porém toda obra é criada a partir de um contexto. É notório que ao ser escrito e dirigido por um Italiano branco, está posto no filme um fetichismo que essa população tem em ver a superação do africano através da dor, da violência e da fome. Também traz a noção de que um homem branco precisa contar essa história para denunciar esses fatos.
A direção de Eu, Capitão está longe de ser ruim. Apesar de apostar no choque do sofrimento, Matteo Garrone faz um uso mínimo de cenas gráficas, amenizando em partes esse choque, porém o filme italiano escancara que, pelo olhar do europeu, os africanos ainda precisam deles para que suas histórias sejam contadas.
NOTA: 3,5/5








