CRÍTICA | Com um mau gosto irrefutável, “O Penitente” transforma seu público em refém

Com a intenção de promover um debate na zona cinza da moralidade, a respeito de ciência, religião e justiça, o novo filme dirigido e estrelado por Luca Barbareschi, “O Penitente” chega ao Festival de Cinema Italiano no Brasil.

No filme acompanhamos a carreira e a vida pessoal de um psiquiatra começam a desmoronar após ele se recusar a testemunhar a favor de um ex-paciente violento e instável, responsável por um massacre escolar. A identidade LGBT do jovem paciente, a fé judaica do médico, a fome de notícias da imprensa e o julgamento severo da lei, agravados por um erro de impressão no editorial de um jornal, desencadeiam uma reação em cadeia explosiva.

Com 120 minutos de duração, “O Penitente” não é nada além de uma obra de extremo mau gosto. Com uma cinematografia barata, como se tivesse um orçamento de uma produção televisiva dos anos 2000, o longa tenta provocar uma atmosfera intimista apostando em locais fechados e diálogos excessivamente longos e repetitivos. A dublagem em italiano por cima, na cópia que foi exibida para mim, atrapalha ainda mais a experiência, causando um desconforto que vai além da proposta da trama.

O filme tenta ser o amigo mais inteligente do recinto, carrega consigo uma prepotência intelectual que ganha força através do protagonista. Contudo, nada do que ele pretende ser mostra de fato o que ele é. Até agora me questiono se foi uma boa ideia, em pleno 2024 com o mundo passando por polarizações políticas e a ascensão da religião no poder em muitos países, colocar um médico fanático religioso, que coloca suas crenças acima de sua missão juramentada – e exibir de um modo implícito (de forma vitimizada) como se ele fosse o parâmetro de moralidade e integridade (mesmo julgado pela mídia por isso).

Todas as relações neste filme são frágeis como uma cerâmica coberta por manteiga na mão de uma criança. Nada se sustenta, nem as motivações para que o médico possa tomar uma atitude, ou as implicações de sua imparcialidade causam na vida dos seus entes queridos, muito menos quando ele descobre que foi traído por sua mulher. Tudo é muito blasé, nada causa comoção, empatia ou impacto, na ficção e na vida real.

Talvez, o que faz com que “O Penitente” não seja uma grande perda de tempo é a cena em que o protagonista é interrogado pela justiça. Ali, o filme promete uma certa crítica social, diante do comportamento dúbio do médico enquanto a câmera foca na Têmis com sua balança, o símbolo da justiça, atrás de quem é o instrumento dela. Contudo, é jogado fora com o diálogo final, em que o protagonista gasta minutos a fio para justificar suas atitudes, como se tentasse convencer o público a qualquer custo (e não de um modo que transpareça alguma crítica).

O filme implica no papel do médico psicólogo em julgamentos de criminosos perigosos. A história provoca o espectador de que a trama escondida guarda coisas além da homofobia do protagonista. Afinal, ele já havia testemunhado a favor de outros criminosos antes, mas porque sua moral religiosa impede que ele deponha quando o réu é gay?

E, bem, é realmente isso, tem algo a mais. Nos minutos finais que “O Penitente” tenta criar um grande plot twist (que não surge muito efeito porque fica claro na metade do filme). A homofobia não era a única coisa no seu caminho. Sua religião não protegia de sua negligência, nem de seu preconceito.

Para ser honesta, “O Penitente” é um filme extremamente CHATO. É insuportável assistir as 2 horas de diálogos a fio, repetitivos, desgastantes e mal colocados na montagem do filme. O que fica ao fim é o sentimento de que o diretor tinha a intenção de criticar algo, mas acaba mostrando ser um aliado aos pensamentos do protagonista/antagonista da sua obra.

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