O bom e velho humor britânico unido a um drama histórico apagado ao longo das décadas faz com que “Pequenas Cartas Obscenas” entre no rol de filmes imperdíveis para ser assistido neste mês nos cinemas. Dirigido por Thea Sharrock (mesma diretora de Como Eu Era Antes De Você), a produção foca em contar histórias de mulheres impetuosas e de personalidades invictas a época em que vivem, enquanto sobrevivem a diversos modos de repressão de suas liberdades.
Baseada em uma história real, a trama é ambientada nos anos 1920, em uma cidade litorânea inglesa. Duas vizinhas, Edith (Olivia Colman) e Rose Gooding (Jessie Buckley) entram em um embate quando os moradores da cidade começam a receber cartas maldosas e Rose é acusada de ser culpada.

Com 1 hora e 40 minutos de duração, “Pequenas Cartas Obscenas” utiliza do humor para contar uma história que carrega um pano de fundo dramático e triste de ser observado – mas importante de ser sempre lembrado. Por ser ambientado após a Primeira Guerra Mundial, época em que as mulheres protestavam pelo sufrágio universal, o filme constrói uma narrativa feminista dentro de sua trama, buscando contar uma história real esquecida (mas atual) de repressão e de busca por liberdade e igualdade em uma sociedade que odeia tanto as mulheres que elas procuram a qualquer custo – não importando as consequências – a sua voz abafada pelo apagamento de identidade ou violência psicológica familiar.
O maior acerto do roteiro de Jonny Sweet foi na construção das personagens. Ainda que carreguem paradigmas criados através de uma vivência que as sentenciavam a viver ao redor das escolhas dos homens de sua casa, todas as mulheres deste filme encontram meios de expressar suas personalidades, anseios e desejos em alto e bom som. Seja através de cartas que refletem o que há de reprimido ou até mesmo no fato de se reunirem para realizar uma investigação autônoma, em “Pequenas Cartas Obscenas” o que não falta é mulheres inacreditáveis para mergulhar em suas histórias individuais.

Um ponto há ser celebrado é a liberdade criativa que Sharrock toma em adaptar uma história tão inacreditável dentro dos moldes que o cinema atual necessita ter. Assim, Sharrock consegue ter em seu filme um elenco diverso, talentoso e que acrescenta positivamente a comédia e aos dramas que a obra propõe abordar.
Não poderia escrever uma crítica sem mencionar o talento ímpar de Olivia Colman. Expondo o seu lado mais asqueroso, a atriz protagoniza uma história que não traz como foco o mistério de “quem é” e sim suas motivações para uma sequência de decisões duvidosas e rebeldes. Jessie Buckley não fica para atrás, a atriz corresponde a performance de Colman, exibindo em sua personagem tudo que falta em sua antagonista: coragem de viver a sua verdade.
“Pequenas Cartas Obscenas” é definitivamente um filme surpreendente. Com uma história que promove inúmeras reflexões sobre o papel da mulher na sociedade, a produção conquista o espectador pelo seu humor desbocado, seu mistério conduzido por uma investigação cinematograficamente nostálgica e, por fim, por um grito de reconhecimento pelas vozes que foram silenciadas ao longo da história da humanidade.
O filme estreia nesta quinta-feira, dia 25 de julho, nos cinemas de todo o Brasil.
Nota: 4/5