Baseado em uma história revoltante e real, “O Sequestro do Papa” do cineasta italiano Marco Bellocchio chega nos cinemas brasileiros no dia 18 de julho com uma estética dramática digna das pinturas do século XIX e uma história aterrorizante, repleta da intolerância religiosa característica do poder governamental da Igreja Católica.
“O Sequestro do Papa” conta a história de Edgardo Mortara (Enea Sala), um jovem judeu que vivia em Bolonha, Itália, que em 1858, após ser batizado secretamente, foi tirado à força de sua família para ser criado como católico. A luta de seus pais para libertar o filho tornou-se parte de uma batalha política maior que colocou o papado contra as forças democráticas e de unificação italiana.

Com 2 horas e 15 minutos de duração, o roteiro de Bellocchio e Susanna Nicchiarelli foca em mostrar a audiência como a Igreja Católica usava do seu poder para perseguir judeus e praticar antissemitismo amparados pela lei. Com o apoio de um elenco que consegue fornecer a profundidade dramática que uma história desse peso exige, “O Sequestro do Papa” invade intensamente aquele que o assiste.
O arco familiar é o que traz a humanização para um fato histórico tão desumano e degradante. Ao dar rosto e nome para um ato tão terrível normalizado à época, garante um efeito imediato na imersão desse conflito entre igreja e estado. O estreante Enea Sala, que interpreta a versão mais jovem de Edgardo, faz um trabalho esplendoroso ao transmitir a confusão entre sobrevivência, esperança e a disciplina pelo medo e terror – sem deixar de lado sua ingenuidade infantil carregada de doçura. Bem como Paolo Pierobon, que está do outro lado da história como o Papa Pio IX, com um punho de ferro, construindo ao seu redor uma população inconformada e motivada a se rebelar. Entre delírios e tormentos, Pierobon exerce melhor seu papel quando exibe a ganância e a manipulação de um líder religioso impetuoso.
Representando a liberdade (e a falta dela) e luto pelo figurino, “O Sequestro do Papa” também é um filme que conta com seus planos abertos e edifícios teatrais intimidantes para contar sua história de modo com que exibe a potência da Igreja sob os fiéis e não fiéis. A direção de fotografia de Francesco Di Giacomo é essencial para a construção de uma produção que opta por transmitir ideias vistas no pré-impressionismo de pinturas italianas e francesas. Com um ar dramático, imponente e aterrorizante, a estética da obra caminha lado a lado com sua construção narrativa. Isso se estende para a trilha sonora, que ganha um tom mais obscuro toda vez que personalidades católicas marcham diante da tela, mostrando o claro posicionamento de Bellocchio diante de tais atrocidades.
“O Sequestro do Papa” é o tipo de filme que realmente parece uma pintura antiga, que conta uma história trágica, sem finais felizes, mas com a reflexão de um momento histórico que a humanidade não deve repetir.
Nota: 4/5








