Tempos de Barbárie – Ato I: Terapia da Vingança é um filme brasileiro de drama, suspense e ação, dirigido por dirigido por Marcos Bernstein (Central do Brasil, Meu Pé de Laranja Lima) que chegou nos cinemas brasileiros ontem (17), com distribuição da Paris Filmes e coprodução da Globo Filmes, é estrelada por Cláudia Abreu e Júlia Lemmertz.
O filme conta a história de Carla (Cláudia Abreu), uma advogada que sofre uma tentativa de assalto com a filha e durante a fuga, sua filha é baleada e fica em estado grave. Carla tenta seguir sua vida, esperando que um dia a filha melhore e esperando respostas do Estado por alguma justiça; Justiça essa que nunca vem. Até que ela resolve agir por conta própria numa jornada que vai levá-la a caminhos tortos, nos mostrando até uma pessoa pode ir por dor, medo e sede de vingança.
Bem na pegada female rage¹, aos poucos vemos Carla perder a sua sanidade (é loucura ou ódio?) ou simplesmente aceitar que se ela não fizer nada, ninguém fará e a sua filha será apenas mais uma estatística, como milhares de brasileiros vítimas da violência todos os anos. De forma alguma o filme é um incentivo para que todas as vítimas de violência façam o mesmo que a protagonista faz, pelo contrário. A jornada da Carla é brutal, as coisas que ela faz sem medir as consequências é só porque ela também acha que a sua vida acabou e que dali adiante não fará diferença alguma se ela vive ou morre, ela acha que já tem uma sentença definida para ela.

A vingança de Carla não é direcionada apenas a quem cometeu o ato e sim procurando a raiz do problema da violência no país, ou no caso, a “cadeia produtiva” do crime que levou a arma até o bandido que atirou na sua filha. O problema está em quem vende as armas de forma ilegal, de quem trafica, de quem faz as políticas públicas, quem aplica a lei só para os que não podem pagar propina… É um problema gigantesco no Brasil e em todos os países em desenvolvimento como o Brasil.
A atuação primorosa da Cláudia Abreu torna o filme ainda melhor. A direção soube captar muito bem os sentimentos da personagem no decorrer do filme, desde a culpa, a desesperança e desespero, até o medo e o ódio. A atuação de Júlia Lemmertz como a terapeuta Natália, que também é uma vítima de violência, também é incrível. Natália tenta mostrar na terapia de grupo que há formas diferentes de lidar quando se é vítima de violência sem precisar recorrer à violência, mas será que ela acredita mesmo nisso tudo? Os diálogos entre Carla e Natália são maravilhosos. O elenco ainda conta com Alexandre Borges, César Melo, Kikito Junqueira, Pierre Santos, Adriano Garib, Claudia Di Moura, Roberto Frota e Giovanna Lima.
Nesse filme, não temos heróis ou vilões, é muito além disso. É uma jornada dentro dos traumas que os personagens sofrem como vítimas de violência e como eles vão reagir perante esses traumas, é sobre o que mães são capazes de fazer pelos seus filhos, é sobre a inexistência de limites quando você está de saco cheio de ser saco de pancadas do sistema. Esse primeiro ato de uma trilogia traz a reflexão sobre a cultura armamentista e os riscos que ela traz à sociedade.
Tempos de Barbárie – Ato I: Terapia da Vingança é uma produção da Passaro Films, Hungry Man e Neanthertal, em coprodução com a Globo Filmes estreia nos cinemas brasileiros hoje (17).
NOTA: 4,8/5
Female rage¹: movimento que vem tomando as redes nos últimos anos como uma forma de encorajar mulheres a reivindicarem seu espaço sem serem invalidadas por sentirem raiva, como se o sentimento fosse “menos feminino”. No audiovisual, é representado por mulheres que guardam seus traumas e sentimentos porque “mulheres sofrem em silêncio”, até o ponto em que essas personagens transbordam e partem para a fase da vingança ou de simplesmente revidar e não se calarem perante injustiças ou um ato violento.
Exemplos: o livro Garota Exemplar (Gillian Flynn), a série The Handmaid’s Tale (2017-presente) e o filme Bela Vingança (2020).