A Tribernna assistiu ao filme antecipadamente à convite da Universal Pictures
Conhecido por seus enquadramentos milimetricamente simétricos e uma paleta de cores bem característica, Wes Anderson construiu ao longo de sua carreira uma assinatura clara de seus trabalhos, não só da parte visual mas na construção de sua narrativa. E, com “Asteroid City“, seu mais novo lançamento pela Universal Pictures, não seria diferente. O filme traz a essência do cineasta, com um humor peculiar e uma história que instiga a curiosidade – mas que não irá agradar a todos.
Encenada como uma peça, a história é ambientada nos anos 50 e segue uma convenção organizada para unir alunos e pais em uma competição acadêmica, até que o caos repentinamente se instala. Acontecimentos em escala global ameaçam perturbar espetacularmente o itinerário da convenção Junior Stargazer/Space Cadet na pacata cidade, à medida que se desenrolam os eventos capazes de mudar o mundo para sempre. (*)

Nos seus primeiros 10 minutos, Wes Anderson já deixa claro que tipo de filme iremos assistir. De forma teatralizada, literalmente como um teatro – sem cortes e com mudança de cenários físicos -, o interlocutor (vivido por Bryan Cranston, acima) nos apresenta a estrutura do processo de criação de uma história… a história que assistiremos. Dividida em 3 atos, “Asteroid City” acaba mostrando ser uma história dentro de outra história, onde nós – espectadores – observamos tanto método criativo do autor e dos atores, bem como a história ganhando vida em forma de cores bem à nossa frente.
O filme inteiro se estende com intuito de evidenciar as performances teatrais e dramáticas dos personagens, de modo com que pareça realmente que nós estamos assistindo uma peça. A obra acaba por se caracterizar como uma ode à arte, ao poder de contar histórias e como dar vida a elas de formas distintas, criativas e, por muitas vezes, poeticamente confusas.

Além da sua estética perfeita, com uma paleta de cores em tons pastéis, e o seu humor único, que nem todo mundo pode apreciar, o filme é um deleite de personagens criativos que são apresentados ao mesmo tempo de forma paralela. Usando de planos abertos para contar com a pluralidade de personalidades no mesmo ambiente, o longa permanece interessante e até cômico na maior parte do tempo.
Ainda que eu tenha ciência que este é um filme que não irá agradar a todos, já que toda sua construção narrativa é bem única e peculiar, a curiosidade acerca do desconhecido é alimentada com tanto afinco que a imersão é inevitável. Anderson consegue cultivar uma certa obsessão no espectador que fica ávido por mais dos personagens tão inusitados e imprevisíveis.
Com a ajuda de um elenco de estrelas isso acaba não sendo algo tão difícil de conquistar, não é? No entanto, mesmo que Scarlett Johansson, Tom Hanks, Jeffrey Wright, Tilda Swinton, Edward Norton e Adrien Brody sejam uma das grandes estrelas – extremamente competentes em suas performances -, o trio infantil composto pelas trigêmeas Ella, Gracie e Willan Faris rouba a cena em todas as cenas em que ganham o mínimo de aparição. Carismáticas e naturalmente exageradas, o trio contribui ao humor ácido do filme de forma exímia.

Ainda que as performances do elenco sejam a maior qualidade do filme, “Asteroid City” acaba perdendo pela redundância. Em seu terceiro ato, Anderson mostra que já entregou tudo que tinha para entregar e só nos enrola para completar as 1 hora e 46 minutos de duração. Aqui, o filme fica cansativo e monótono, perdendo a atenção do espectador que dissipa em meio a repetição de eventos que parecem não ir a lugar algum.
Todavia, a trama consegue conquistar a audiência novamente, de forma inesperada – como inicialmente – assim que se aproxima do fim. Com questionamentos, que parecem ter sido criados para conversar com o público que assiste o filme, os diálogos escritos por Wes servem como um desfecho esplendoroso! A cereja no topo do bolo é a aparição de Margot Robbie, que nos presenteia com uma atuação hipnotizante.
“Asteroid City” é um filme característico de Wes Anderson, e isso pode ser lido como uma qualidade ou defeito, já que por mais que ele traga todos seus acertos previamente apresentados, ele também não traz absolutamente nada de novo. O cineasta não escolhe ousar ou se reinventar, pelo ao contrário, ele só reafirma sua marca no cinema ao reunir grandes estrelas do cinema para fazer uma homenagem a indústria da sétima arte.
O filme estreia amanhã (10) nos cinemas de todo o Brasil.
Nota: 3,8/5