Ambientado em 1988, durante o regime governamental extremamente conservador da ex-Primeira Ministra Margaret Thatcher, “Blue Jean” traz um drama íntimo, intenso e avassalador sobre auto aceitação e libertação de paradigmas preconceituosos.
Dirigido e escrito por Georgia Oakley, o longa traz a história de Jean (Rosy McEwen), uma professora de educação física que vive em uma era política cheia de restrição de direitos a população LGBT, por isso ela não tem outra escolha além de levar uma vida dupla. Porém, com a chegada de uma nova aluna que ameaça expor a sexualidade da professora, Jane será forçada a repensar sua luta pela liberdade ao ser pressionada fortemente de todos os lados.

Repleto de subtextos e metáforas em sua fotografia, “Blue Jean” tem um começo muito promissor. Tomando, pelo menos, os trinta primeiros minutos para construir a personagem principal, o filme aprecia a escolha de usar técnicas de fotografia distintas para a sua vida como professora e sua vida pessoal, afim de distinguir as duas personas que cria para sobreviver.
Além disso, o roteiro de Georgia Oakley provoca um caminho distinto a produções protagonizadas por lésbicas. Muito além do preconceito e comportamento hostil, a narrativa é moldada através da jornada de libertação da própria personagem principal. Isso fica mais claro quando observamos a mudança do cenário ao seu redor, como por exemplo, quando vemos inicialmente um cartaz da ex-Primeira Ministra falando sobre o conservadorismo, e, ao fim, observamos que este mesmo cartaz teve sua mensagem obstruída com dizeres da oposição.
A colaboração entre a direção de Georgia com a direção de fotografia de Victor Seguin faz do filme ser uma das maiores surpresas de seu gênero neste ano. As escolhas de cores, posicionamento das câmeras que tem o intuito de trazer uma imersão aos sentimentos intensos e o foco que dá as performances silenciosas do elenco….isso tudo contribuí para uma experiência única do espectador que se apaixonará pela produção, inevitavelmente.

A construção dos relacionamentos, sejam eles amorosos, familiares ou dos outros círculos sociais, são exibidos e desenvolvidos de forma tão verossímil que – ainda que seja ambientado nos anos 80 – se torna algo identificável e palpável. A delicadeza em que as relações são postas em tela são um dos pontos principais do filme, seja pelos confrontos ou como ferramentas para o auxilio do desenvolvimento pessoal da protagonista, é inegável que o olhar de Oakley é algo primoroso e único.
Rosy McEwen é uma protagonista feroz e capaz de externar todo conflito e dilema que sua personagem vive de forma tão perceptível. A atriz sabe conduzir a história de modo com que mesmo com atitudes moralmente duvidosas, a empatia e a compaixão por sua personagem ainda se mantém presente. As demais atrizes que compõem o elenco não ficam para trás, conseguem contribuir positivamente para trazer sensibilidade e poder a uma história que foi construída de forma tão bonita.
Lançado em 2022 no Festival de Cinema de Veneza, no qual garantiu o prêmio na categoria de voto popular, no British Independent, “Blue Jean” traz sensibilidade a conflitos de uma pessoa LGBTQIA+ sem estereótipos em suas características, dando voz a memórias enclausuradas de pessoas que podem se identificar com a pressão de viver uma vida que não lhe pertence.
“Blue Jean” estreia hoje (27) nos cinemas brasileiros.
Nota: 5/5