Uma atleta olímpica de salto sincronizado sofre um acidente devido a uma doença auditiva e é obrigada a se afastar das piscinas. É assim que começa Tinnitus, o nome do filme que também é o nome da doença que Marina (Joana de Verona) tem. Depois desse prelúdio, o filme, dirigido por Gregorio Graziosi e premiado no Festival de Gramado, salta alguns anos no tempo, onde acompanhamos Marina no tratamento da sua doença e na exploração dos seus desejos, tanto como mulher, quanto como ex-atleta.
A premissa de Tinnitus é interessantíssima e o filme traz várias questões importantes para a tela, além da própria deficiência auditiva. O longa provoca o espectador com o seu trabalho de som e se coloca em um lugar entre a narrativa clássica e a experimental, e isso funciona para o bem e para o mal.
Desde o começo o filme te provoca uma estranheza sonora, não no intuito de te afastar do filme, mas de te levar para o universo da personagem que vive com esse incômodo 24 horas por dia. Tinnitus traz muito bem a reflexão do quanto ignoramos o som quando ele passa a nos incomodar, e como precisamos prestar mais atenção nele e na nossa saúde auditiva, porém, no meio de uma fraca narrativa nós esquecemos dos sons. Por mais que os personagens ainda tenham esse incômodo e que isso lhe cause consequências, nós nos acostumamos com esses incômodos e as provocações do filme não surtem mais efeitos.

Se o filme se perde no seu trabalho de som, o mesmo acontece com a narrativa. De início ficamos intrigados com a relação de Marina com o seu médico e esposo, Dr. Santos (André Guerreiro), a relação conturbada e abusiva pelo lado do Dr. parecia que ia guiar a trama ao lado do retorno da Marina ao esporte, porém as coisas se movem em outras direções. Dentre os maiores incômodos está a Teresa (Alli Willow), uma personagem que desde o princípio percebemos suas segundas intenções, mas que no fundo parece que não tem motivação alguma e tem um final tão confuso quanto o caminho que o filme seguiu, que mais tira o espectador da experiência do que chama a sua atenção.
Todo o elenco cumpre bem o seu papel e traz boas interpretações para seus personagens. Além dos já citados, temos a grandiosa Thaia Perez, no papel da ex-técnica de Marina, que explora questões sobre envelhecimento, principalmente sobre o lado feminino. A Indira Nascimento, interpretando a Luisa, ex-companheira olímpica da Marina, é uma antagonista fenomenal, nos fazendo sentir repulsa por muitas vezes da personagem, apesar de entendermos as suas motivações. Um personagem menos importante mas que se destaca é o Inácio, interpretado pelo Antônio Pitanga, que sofre da mesma doença de Marina, e apesar de ser colocado em um lugar de ‘doido’, Antônio deu uma interpretação decente ao personagem.

Tinnitus apresenta boas ideias, mas tem uma execução perdida. No meio da sua narrativa (já confusa) insere elementos experimentais que afastam o espectador da experiência. O filme tem seus pontos positivos (o trabalho de fotografia e de arte são belíssimos), mas o roteiro escrito por Andres Julian Vera, Marco Dutra e o próprio diretor, Gregorio Graziosi não conclui de maneira eficiente o que se propõe a refletir e não acrescenta muito no debate sobre os conflitos femininos.
NOTA: 2,5/5