No último dia 10 o Star+ adicionou em seu catálogo Em nome do céu, a mais nova minissérie de drama true crime da plataforma. Baseada no livro de não-ficção “Pela bandeira do paraíso: uma história de fé e violência” escrito por John Krakauer, a história acompanha o detetive Jeb Pyre (Andrew Garfield) durante a investigação de um crime brutal dentro de sua comunidade e, aparentemente, cometido sob uma interpretação extremista das leis de sua religião.

A notícia de um duplo assassinato envolvendo uma jovem mãe e seu bebe é o suficiente para causar um choque imenso em qualquer comunidade, especificamente em uma pequena no subúrbio do estado de Utah. No entanto, para além de um tremendo choque, a situação tende a piorar quando os principais suspeitos são da própria família, e é assim que se inicia a investigação que perdura os 7 episódios de Em nome do céu.

O grande diferencial de Em nome do céu para outras séries de drama true crime é o foco na mente do detetive e sua fé, que tende a ser aqui seu maior trunfo, quando usa os conceitos de sua religião para entender a mente dos criminosos que causaram essa tragédia. Mas é também sua maldição, ao se ver no meio de um extremismo assustador que pode levar sua família para um caminho perigoso e o faz questionar seus deveres como um homem da lei e suas obrigações como um homem de fé. Andrew faz isso com maestria e sensibilidade, tornando preciosos os momentos em que o detetive se questiona, se choca e se perde.
As vezes por meio de um diálogo, de uma oração ou em silêncio quando uma lágrima teimosa se mostra presente, Andrew recebe os questionamentos do detetive e os executa com uma naturalidade de alguém dividido, tornando justificável sua indicação ao Emmy de melhor ator. A parceria com Gil Birmingham (Bill Taba), o detetive forasteiro e assumidamente ateu, eleva todas essas duvidas e mostra a importância da investigação dentro da comunidade. Bill serve muito como uma âncora para Jeb ao colocar os pés do parceiro no chão e o lembrar sempre de sua importância como detetive e homem de fé.

A série evita cenas gráficas e momentos de violência física, o grande trunfo é a forma em que a religião dita cada passo da investigação e do eventual crime, em seus momentos de flashback. Mas o grande problema da série aqui é o excesso da dramatização quando se trata de contar as histórias originárias dessa religião. Nos primeiros momentos funciona muito bem e vira um fator adicional para o telespectador entender como a mente dos criminosos vai escalando, mas em certo momento isso vira excesso e se torna, não apenas um incomodo narrativo como também um empecilho para o próprio ritmo da série.

A escalada da ‘insanidade‘ da família Lafertty é bem feita, conhecemos os protagonistas pelos olhos de Brenda (Daisy Edgar Jones) e aos poucos é de se notar que a hospitalidade é o inicio de uma lista de regras e deveres, e conforme Brenda se opões as versões mais machistas e arcaicas ao tentar trazer atualizações sobre como o mundo funciona os líderes vão decidindo que ela não é digna de estar presente e assim, ao longo dos episódios, a trama vai se desenrolando deixando óbvio para o telespectador qual caminho pretendem seguir.

Daisy entrega uma personagem forte e impetuosa que antecipa movimentos, mas que também mostra que estava entranhada demais para sair de perto de toda a insanidade e se coloca na missão de salvar as outras esposas antes mesmo de saber o verdadeiro perigo que corria. Outro grande destaque aqui é para Wyatt Russell (Dan Lafferty) que entrega um personagem genuinamente mal e doente enquanto acredita cegamente em sua certeza. Russell torna desconfortável as cenas em que esta presente, mesmo que em silêncio, e é talvez a única sensação real de perigo que a minissérie passa.
Os outros membros da família não ficam tão atrás. Em todos os momentos que estão presentes é nítido o quanto acreditam fielmente que estão fazendo coisas certas e agindo da única forma possível. Eles servem como um contraponto pra própria narrativa do detetive. Principalmente Ron Lafertty (Sam Worthington) e Samuel Lafertty (Rory Culkin) que mostram o tipo de controle e poder que possuem sobre suas esposas e o quanto ambas temem silenciosamente essa fé cega.

Em nome do céu é bem construída, visualmente melancólica e agoniante de assistir e poderia de fato ser uma das melhores minisséries do ano, se o ritmo imposto pela narrativa não a tornasse tão exaustiva. Entre esses erros e acertos o resultado ainda consegue ser positivo por entregar uma experiência tão completa, do tipo que deixa o telespectador pensativo, mesmo um tempo após o fim.
Todos os 7 episódios da série já estão disponíveis no STAR+.








