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CRÍTICA | Primeira temporada de “Sandman” entrega uma das melhores adaptações de quadrinhos do ano

Desde que a Netflix anunciou a produção de uma série de Sandman em 2019, muitos rumores surgiram acerca da qualidade da adaptação de uma história tão importante para a cultura pop e com uma carga de fãs que já dura décadas. Mas na última sexta-feira (05) a Netflix finalmente lançou em sua plataforma a tão aguardada série e conseguiu, com maestria, entregar algo que não apenas suprisse as expectativas dos fãs mas também que fosse uma adaptação extremamente fiel.

O roteiro da série optou por adaptar os dois primeiros arcos dos quadrinhos, Prelúdios e noturnos que funciona como uma introdução para o personagem principal da história, seu universo e as regras desse novo mundo. E Casa de bonecas, que mostra mais detalhes sobre a humanidade e como o protagonista é moldado através do contato com os seres humanos e sua relação de mestre e servo. E ao longo dos 10 episódios mergulhamos de cabeça nessa história com todas as nuances que couberam dentro de uma adaptação televisiva.

Claro que ter o dedo de Neil Gaiman no processo de produção era sinal de alívio, parte pela tranquilidade que ter o criador da obra envolvido na adaptação traz e, parte porque suas adaptações tem a tradição de serem fiéis a produção original. Fato que fidelidade não é o essencial para definir uma boa adaptação, mas quando aliada a um bom roteiro é impossível não vibrar ao ver até pequenos detalhes ganhando vida. E foi isso que Sandman conseguiu entregar.

Tom Sturridge foi talvez a melhor escolha possível para interpretar Morpheus, ao conseguir aliar a dualidade entre a arrogância e empatia características do personagem ele encontrou o tom melancólico de quem passou um século privado de sua vida, desde sua caracterização até grandes momentos de dúvida Tom entregou um Sandman fiel e reflexivo como era de se esperar. Boyd Holbrook não ficou nenhum pouco atrás ao encarnar o Corínthios trazendo um toque para os dias atuais, o personagem que serviu como um vilão dentro da narrativa conseguiu ser o contraponto exato do protagonista e talvez até assumir a narrativa em certos momentos entregando o duelo de criador e criatura.

Jenna Coleman deu vida a uma Johanna Constantine problemática e traumatizada exatamente como era de se esperar e, apesar de seu pouco tempo de tela, foi suficiente para que deixasse sua marca. Gwendoline Christie pegou o papel de Lúcifer e entregou todas as nuances do personagem, principalmente o ego e a soberba, o duelo do episódio quatro já se consagrou como um dos melhores momentos da série. E o destaque especial de David Thewlis (John Dee) que deu vida a um dos personagens mais perturbados das histórias em quadrinho e entregou com maestria a adaptação de um dos arcos mais bizarros desse universo.

Sandman sempre foi um quadrinho extremamente cultuado dentro da cultura pop e parte disso foi pela reflexão que a história trazia em seus arcos, momentos como a importância da morte para a vida ou a prova de que uma amizade pode durar séculos, a dualidade entre paraíso e inferno e os detalhes sutis sobre a importância do sonho e da esperança para a humanidade e era de se esperar que esses detalhes não coubessem dentro de uma primeira temporada que trazia principalmente a importância de apresentar um novo universo e se estabelecer sendo bom o suficiente para garantir uma renovação de temporada onde o campo fosse mais livre para abusar dessas nuances.

No entanto mesmo sem esse foco dentro dos sentimentos dos perpétuos a série conseguiu atingir um nível importante como o episódio 6 que entregou todo o dilema de vida e morte, começo e fim. a representação da morte por Kirby Howell-Baptiste em tão pouco tempo conseguiu trazer a superfície boa parte das características da personagem e a química entre Kirby e Tom trouxe o mesmo ar de amizade e parceria que a história original já entregava.

Talvez o único deslize da série seja a mudança de ritmo entre a primeira parte da série e a segunda que optou por entregar a história de Rose Walker (Kyo Ra) e toda a história do vórtice dos sonhos que entrega um arco mais focado na humanidade e nos efeitos que a ausência de Morpheus causou, mas que é também parte essencial para a construção desse universo e a manutenção dela para uma nova temporada que tem o dever de mostrar melhor a família disfuncional e as rivalidades entre elas junto ao efeito que isso causa no mundo.

No mais Sandman conseguiu cumprir o que se propôs ao entregar uma adaptação fiel e atual dentro de um contexto onde se valesse dos tropos do universo de super heróis, mas com a maturidade de uma história densa que se vende como uma jornada de herói, até a parceria com seu fiel corvo Matthew, e entrega um recomeço para um personagem e um mundo que está se adaptando a uma nova realidade.

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