Recém-lançado no streaming da estrela, uma nova história de ação desenfreada sob o selo original da Star+ promete uma proposta menos séria ambientada no medievalismo ficcional e “absurdo”, para dizer o mínimo. A narrativa assinada por Ben Lustig e Jake Thornton toma rumos despreocupados que buscam chocar e impressionar quem assiste utilizando elementos antagônicos para produzir uma comédia bagaceira, mas não consegue entregar 100% daquilo a que se propõe. Desligue o cérebro! É um requisito para assistir ao novo A Princesa.
O filme começa já no meio da história: presa no quarto mais alto da torre mais alta, temos “a princesa” deitada em um dossel com pétalas de rosa, usando um vestido de casamento digno dos bailes de formatura dos anos 80. Acordando lentamente, a princesa percebe-se algemada à cama enquanto dois homens não muito bem intencionados invadem o quarto e olham com luxúria para a personagem de Joey King. O que não se espera é que a princesa parte para cima dos dois brutamontes, derramando sangue e deixando uma trilha de corpos por onde passa. Uma versão PG-13 da princesa Fiona, eu diria.

O básico: a escrita de Lustig e Thornton ama a subversão. Já no início vemos uma paisagem camponesa saída diretamente de um conto-de-fadas, com uma jovem incrivelmente bela, cândida, acompanhada de uma trilha mística e medieval dando lugar a cenas de ação surpreendentemente bem coreografadas, mortes brutais e um humor… macabro, digamos. A aura mágica da Disney é quebrada de forma similar a Shrek, brincando com os limites do crível (como deslocar o polegar para livrar-se de algemas e depois “recolocá-lo” no lugar).
O intuito aqui, percebe-se já nos primeiros minutos, não é fornecer um épico amargurado como O Homem do Norte, mas sim não se levar a sério. A história é essencialmente um video-game com cenas de ação divididas em fases: cada sala, cada corredor guarda um novo boss mais poderoso que o anterior. E o forte aqui é precisamente a ação. Todas as cenas de luta protagonizadas em sua maioria pela própria atriz Joey King (a mesma de A Barraca do Beijo) são de chocar qualquer espectador pela complexidade de suas coreografias. Sério, King surpreendeu este jovem redator.

A direção do até então desconhecido vietnamita Le-Van Kiet prioriza de forma exclusiva a ação: são closes épicos em torno da atriz, uma câmera que foca bastante com takes longos para um filme de ação, deixando a cena compreensível. Se posso citar um exemplo, é o que vimos em Raya e o Último Dragão. Porém, por este ser o enfoque do filme (ver uma garota de 1,62 de altura cortando a garganta de homens 2 vezes maiores que ela), todo o resto do filme é prejudicado.
Os diálogos são superficiais para um filme que não quer ser levado a sério, o que é ok, mas a performance genuína de alguns dos atores causa vergonha alheia. Enquanto King e Dominic Cooper (o antagonista) se divertem, Alex Reid e Ed Stoppard (a rainha e o rei) entregam uma tentativa genuína de tristeza pelo derramamento de sangue em seu reino. Essa vã tentativa aliada a falas fracas faz qualquer um torcer o nariz e querer ver a princesa pegando na espada novamente.

Outro prejuízo se vale na história. As cenas isoladas de luta (principalmente a da escadaria) funcionam com perfeição, mas o espaço de tempo entre elas não prende a atenção. Isso deixa o roteiro com altos muito altos e baixos vertiginosamente baixos. E estes momentos baixos arrefecem tanto o espectador que as cenas de luta parecem costuradas umas nas outras e entregam de bandeja o propósito do filme: ver uma garotinha cometendo uma chacina de sabe Deus quantos corpos e fazer o espectador rir do quão absurdo é isso.
E ele não somente é só isso como ele assume com orgulho a paródia. O 3º ato do longa abraça e abarca ainda mais a pataquada, elevando-a ao nível da breguice. Talvez por exagerar tanto no final, este seja o ponto de declive para mim. São takes em câmera lenta, um pouco de feminismo não organicamente incluso naquele feudo, lágrimas e heroísmo exagerado… Aqui, neste ponto, os roteiristas quiseram voar demais e apressaram uma história já curta de 90 minutos para enxugar algo já tão enxuto e, mesmo assim, redundante.
Mas o cinema é uma das 7 artes e, assim como as outras 6, não precisa ser uma obra sempre reflexiva e profunda. Algumas vezes um besteirol americano sendo do jeitinho que ele é consegue ser tão marcante quanto um clássico reverenciado pela academia. Ou pode apenas divertir e desligar o cérebro de quem assiste. A Princesa não marcará a história do audiovisual, mas consegue fazer 1 hora e meia parecerem um piscar de olhos sanguinolento e hilariante. Na maior parte do tempo.
Nota: 2.2/5.0