CRÍTICA | “Elvis” remodela a história do “rei do rock” em algo mais atrativo para a nova geração

A Tribernna assistiu o filme antecipadamente à convite da Warner Bros. Pictures

Cinebiografias de figuras extremamente populares sempre foram um campo minado para diretores e roteiristas que devem se equilibrar na corda bamba do que é ser moralmente ético ao contar essas histórias. A tendência dessas narrativas podem pesar mais para o lado ficcional e idealizado desta personalidade em questão ou um olhar mais crítico e fiel aos fatos que rondaram sua vida. Elvis cai em um penhasco ficcional e romantizado, relativizando todas as polêmicas que o cantor se envolveu em sua carreira.

O longa dirigido e escrito por Baz Luhrmann tem a missão de nos contar a trajetória do artista, vivido no cinema por Austin Butler, da sua ascensão a fama até seus momentos finais. Através da narração de seu polêmico empresário  “Coronel” Tom Parker (Tom Hanks), Elvis já estabelece desde então que a perspectiva da narrativa é sua e não do cantor, que molda e cria a figura emblemática dos anos 50/60.

Elvis de Baz Luhrmann | Trailer Oficial - YouTube

Nos primeiros minutos Elvis nos insere quase em um espetáculo teatral, com uma edição imersiva e uma montagem acompanhada de clássicos do cantor, o resumo do que iria por vir faz com que quem o conhecia se sentisse nostálgico, e quem ainda não o conhece sinta mais curiosidade pela trama. A direção extravagante de Luhrmann se estende ao longo do filme, não só nos minutos iniciais, o que se faz necessário para contar a história de Elvis.

A escolha das músicas foi muito pontual e extremamente bem executadas, com exceção de Vegas cantada por Doja Cat, que, apesar de ser uma ótima música, fica completamente perdida dentro do contexto das cenas que a antecederam. Parecendo um erro de continuidade até.

No entanto, o que chama realmente atenção no filme é a atuação de Austin Butler. Da sua caracterização às performances, Butler se transformou por completo. O ator fugiu dos estereótipos e performances caricatas que envolve o cantor e nos presenteou com uma representação mais realista, pelo menos dentro do contexto inserido. Quando subia ao palco, suado e cheio de lantejoulas, Butler nos fazia viajar pelo tempo e entender o porquê da histeria em torno de Elvis.

Ainda que o filme ronde mais o Coronel, a história ganhe sua narração e os pontos mais explorados da história são aqueles que ele está mais envolvido; é muito mais pelo Butler que o filme se torna divertido de ser assistido. Ainda que seja cansativo pela sua duração bem longa, entrega um entretenimento divertido, principalmente para quem gosta de obras com viés musical.

Já Tom Hanks vive o sanguessuga, que tratava Elvis como uma mercadoria muito valiosa, de forma esplendorosa. Sua caracterização compartilha da impecabilidade ao do cantor. O roteiro consegue criar um personagem manipulador e irresistível, fazendo com que seja compreensível entender o porquê Elvis se submeteu a esse negócio por décadas.

Elvis Team: "Credit Needs to Be Given" to Rock & Roll's Black Pioneers - IGN

Durante as 2h39m de duração do filme, a trama constrói uma história em um terreno perigoso. Transformando o Elvis em algo mais comercial e aceitável para os dias atuais, amenizando suas polêmicas e evitando de comentá-las durante o longa (talvez tenham levado muito ao pé da letra o lema do Coronel em criar uma ilusão).

O que mais incomoda é o fato de remodelarem as polêmicas de apropriação cultural e apagamento de cantores negros, que nunca foram remunerados pelos covers ou plágios praticados por Elvis. No filme, o cantor soa quase como um grande aliado da comunidade, utilizando B.B King como seu tolken pessoal; como se ele estivesse fazendo um favor ao trazer a sua música proibida (na época da segregação racial) ao mainstream. Tornando-se até um mártir da imprensa por reproduzir movimentos, ritmos e canções consideradas como “cultura dos negros”.

Ainda que o filme tente fazer uma ou outra crítica superficial eventualmente, tudo soa apenas descartável, já que não condiz com que estava sendo contado até então.

Um fato inegável é que o filme realmente tenta transformar Elvis em um herói, fazendo até uma alusão com Capitão Marvel Jr (o atual Shazam), na forma como o cantor se via e almejava ser. Ainda que o longa aborde de forma singela e superficial seus problemas com drogas (chamadas de pílulas no filme) e álcool, fica perceptível como sempre há uma desculpa para cada ação ruim que ele tomava. Como se o filme passasse a maior parte do tempo justificando seus pecados. Se ele roubava músicas era porque ele se inspirava pela cultura que ele cresceu vivendo (mesmo que lucrasse milhões com as músicas e esses cantores, em sua maioria, morreriam no anonimato).

A escolha infeliz do roteiro de fingir que nenhuma das polêmicas existiram, ou que não foram relevantes na história dele, faz com que o filme se torne uma obra meramente ficcional e algo para agradar exclusivamente a família Presley. Elvis cria uma trajetória árdua, cheia de altos e baixos, repleta de manipulação pelo seu empresário, que o evidencia como um artista desesperado pelo amor do público.

 Elvis estreia nos cinemas no dia 14 de julho.

Nota: 3/5

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