É certo que a Operação Lava Jato foi um dos momentos mais marcantes na história do Brasil. É um fato incontestável, até porque, tirando as consequências óbvias no âmbito socio-político, diversos filmes e documentários nasceram desse acontecimento.
No entanto, após ver diversas versões iguais e minimamente diferentes tratando do mesmo assunto é um choque assistir o longa dirigido por Sandra Kogut “Três Verões“, e notar que a história também é ambientada ao redor dessa época conturbada na história brasileira.
Diferente das demais obras, Kogut decidiu dirigir um longa que trouxesse a visão dos excluídos e deixados para trás. Conduzido de forma exímia, por Regina Casé, o filme é dividido em três episódios da vida dos empregados domésticos da mansão localizada no Rio de Janeiro.

Ainda que Casé seja a protagonista, ela consegue conduzir e dar espaço para a criação de um ambiente com personagens distintos e reais. No entanto, no fim o filme ainda é muito sobre ela e sua caminhada. Seus sonhos, suas dores e seu cuidado são demonstrados de maneira tão crível e tocante que faz ser impossível não se emocionar em pelo menos uma cena sequer.
Caminhando ao lado de Mada (Casé), podemos observar também o protagonismo de Rogério Fróes, como o Seu Lira, um idoso abandonado pelos seus parentes. Ao ficar pra trás, seu personagem acaba sendo incluído ao monte de desprezo e solidão fornecido pela sua família fugitiva.
A jornada de ambos personagens faz com que a história se torne mais envolvente e real para o espectador. O contraste de duas vivências totalmente diferentes mas que encontraram o mesmo destino traz à tona um senso de que não importa sua classe social, o destino ainda pode trazer a solidão como um final trágico. No entanto, em um enredo comovente os dois se encontram em um ponto em comum na tentativa de retomar suas vidas.
Em diálogos inteligentes e cenas emocionantes, essa dupla foi capaz de arrancar algumas lágrimas da audiência.

Como já mencionado, o filme é dividido em três, para ser mais clara: pré lava-jato, lava-jato, pós lava-jato. Em episódios curtos, passados no verão, fim de ano, para ser mais precisa às vésperas do Natal, o filme é suficiente na medida certa para alimentar a ligação e a conexão com a vida dos mais afetados e excluídos dessa operação.
Neste formato, o filme não se torna cansativo nem arrastado. A dinâmica é ágil e a história progride de modo que é possível entender os acontecimentos no período oculto, ainda que não tenha sido explicitamente contato no longa.
A visão única da Kogut resultou em uma obra sem precedentes, com cenas inesquecíveis e impactantes. Mas acima de tudo, com personagens reais perfeitamente desenvolvidos em uma história marcante.
“Três Verões” está disponível no streaming do Telecine.




