Dentre suas 500 novas produções originais lançadas por mês, a Netflix lançou recentemente (20/08) uma nova produção alemã (terrinha da queridinha Dark, ou seja, expectativas lá no alto) que mistura um suspense investigativo e aparentemente vingativo não policial (amém, meu Deus, chega de séries envolvendo a polícia descobrindo um crime) com o mundo da biotecnologia acadêmica. Apesar de serem dois temas batidos e, sinceramente, clichês, a série consegue despertar uma das mais inconvenientes e desencadeadora de situações que rendem filmes, livros e séries a torto e a direito características humanas: a curiosidade.
Mia (Luna Wedler) acaba de começar a graduação de medicina em uma instituição renomada na Alemanha (me perdoem, ainda não adquiri a habilidade de decorar nomes alemães) e logo se interessa (suspeitosamente) pela área de biotecnologia, onde a professora (quase uma celebridade) Tanja Lorenz (Jessica Schwarz; é pra ler “Tânia” mesmo) brinca de Deus e sonha com a erradicação de síndromes genéticas ainda na fase uterina.

Com o decorrer da série, descobrimos que nada é coincidência: uma trama misteriosa ronda a aluna e a professora. Segredos de um passado que Lorenz tentou esconder virão à tona com a chegada de Mia. Manipulações emocionais e genéticas deixam esse thriller cada vez mais envolvente com o passar dos episódios. Até onde vão os limites dos chamados biohackers? A criatura humana realmente pode se autoproclamar criador? Mesmo com a “melhor” das intenções?
Como eu citei antes, esse suspense investigativo ganha sua atenção pela curiosidade. Com seu ritmo rápido, você quer descobrir o mistério por trás da cena inicial no trem e os segredos de Mia. Afinal, quem está certo e quem está errado? São tantas perguntas jogadas na cara do espectador logo no primeiro episódio que tudo o que podemos fazer é deixar a contagem de 5 segundos para o próximo episódio acabar. Para ter a certeza de que vamos sim continuar presos, a série ainda é lotada de experimentos biotecnológicos que fascinam os espectadores mais curiosos: biopianos, ratos que brilham no escuro e proteínas que permitem enxergar no escuro.
O ritmo frenético dessa produção é outro ponto que prende a atenção. Quase todas as ações possuem reações quase imediatas. Isso cria o pensamento inconsciente de “ah, já que tá passando tão rápido, vou deixar rolar pra ver o que acontece”. Também pudera, né? A primeira temporada tem apenas 6 episódios de 45 minutos. E os roteiristas souberam como se aproveitar dessa corrente de ações e respostas que passa igual um trem pelos olhos do espectador. Mas talvez passe repentinamente demais.

A atuação de Jessica Schwarz é um ponto meio perigoso de se encaixar nessa nova classificação de pontos positivos e negativos que eu adotei. Quer dizer, dá pra ver que a atriz se entrega ao papel e tenta nos oferecer uma professora fria e calculista que pouco se importa com os limites da ética. Mas em alguns momentos, eu só conseguia pensar nela como uma imitação de baixo custo da Annalise Keating. Ou até mesmo uma caricatura da icônica personagem da Viola Davis. No fim, achei mais positivo do que negativo. Uma professora arrogante que se acha para além de todos ao seu redor sempre me ganha, seja ela uma “mocinha” ou uma vilã.

Não vou dar spoilers do final, mas vou elogiá-lo. Apesar de todos sabermos que a série não seria uma minissérie (pois lá na Netflix tem escrito “série”, e não “minissérie”) e obviamente sabermos que teria um gancho no final da temporada para uma segunda, o final consegue deixar o espectador surpreso ao criar um novo mistério. Porém, como uma fórmula já bem conhecida e assistida em outras produções investigativas.
A falta de inovação é uma coisa que me irrita, mas como contar uma história nova de um jeito totalmente novo se viemos de uma sociedade que conta histórias há milhares de anos, né? Um paradoxo de solução difícil.

O que prende o espectador também foi o que me causou estranhamento. O ritmo extremamente rápido acaba por colocar um problema em tela que se resolve em questão de minutos de série. Isso prejudica bastante a importância que damos a acontecimentos de natureza “climaxista”. Um exemplo? O arco do trem, que começa sendo o “co-gancho” principal da trama, se resolve tão rapidamente que tudo pareceu muito fácil, assim como o próprio mistério entre Mia e Lorenz: tudo é explicado rápido demais. Mas talvez não seja culpa dos roteiristas, já que tiveram de terminar “tudo” em apenas 6 episódios.
O roteiro geral da série apresenta um novelo de lã com uma aparente dificuldade e lentidão para se desfiar, mas que com uma só puxada, se desenrola completa e rapidamente, e só na pontinha final é que vemos uma ligação com um próximo novelo ainda mantido no escuro. É um pouco frustrante.

Alguns personagens são bem mal aproveitados e parecem que foram criados só pra ajudar a Mia mais tarde. Os secundários mesmo parecem só oferecer uma camada superficial que consiste em duas palavras: nerd engraçada, cientista doido, pseudo-misterioso intrometido, vadia baladeira… Porém, nenhum deles causa um desconforto tão grande quanto o Jasper, interpretado por Adrian Julius Tillman. Que personagem mais “??”. O cara trabalha pra Lorenz, ou seja, tem que ser realmente MUITO inteligente, mas foi facilmente manipulado e, do meio para o fim da temporada, ele só toma decisões estúpidas e nem parece sentir remorso pelo aconteceu no trem.
O ponto mais negativo da série é esse personagem cagad* que colocaram ali pra que? Pra desenvolver um lado pseudo-humano da Lorenz? Decepcionante.

Outra coisa que vale ser mencionada são todas coincidências e oportunidades que o roteiro safado dá pra personagem principal. A Mia tem sorte demaaaaais. Sempre tem alguém passando convenientemente pela porta trancada que ela precisa entrar bem na hora em que ela está tentando descobrir um jeito de atravessar. Ou então um personagem que acabou de conhecer a Mia confia nela praticamente de forma cega.
Além disso, ela consegue manipular as pessoas muito facilmente, o que até consigo acreditar se eu me lembrar que só uma série, mas isso eleva nossa suspensão de crença na realidade e, como já disse, faz a gente se lembrar que é só uma série. A quebra de imersão é a pior coisa que pode acontecer num filme, livro ou série.

Bem, já falei demais. Mesmo com os pontos negativos que tentaram esconder embaixo da trama biotecnológica e nem tão inovadora, mas curiosa, Biohackers consegue ser um suspense de maratonar em um único dia. Apesar de compartilhar a nacionalidade com a aclamada Dark, tá longe de ser tão boa quanto sua compatriota. Porém, ainda consegue ser um pouquinho acima da média. E ainda admiro o esforço dos realizadores da série: conseguiram dar aquela aura de biotecnologia super avançada apenas com efeitos práticos de baixo custo. Uma boa ambientação parte de fazer muito com pouca coisa. I´m gonna finish her. (Em inglês mesmo, não sei falar alemão).
Trailer legendado:



Um comentário
Estava para assistir, sou exigente, tempo a gente valoriza, e vc evitou que eu perdesse o meu.
Porque assistiria quando existem outros filmes e séries melhores, esperando para ser encontradas? E é para encontrá-las que me apoio em críticas como a sua, bem feita, honesta, e muito bem vinda.
Obrigado.