CRÍTICA | “A Mais Preciosa Das Cargas” nos obriga a olhar para o passado para temer o futuro

Exibido no Brasil pela primeira vez no Festival do Rio de 2024, a primeira animação do cineasta francês Michel HazanaviciusA Mais Preciosa Das Cargas” chega no circuito comercial nesta quinta-feira, 17 de abril, contando uma história de dor e amor, em meio a sobrevivência na segunda Guerra Mundial.

Em meio a uma vasta e implacável floresta, um humilde lenhador e sua esposa lutam contra o frio, a fome, a pobreza e os horrores de uma guerra que assola tudo ao redor. Certo dia, a esposa do lenhador encontra um bebê abandonado: uma menina que foi cruelmente jogada de um dos muitos trens que cruzam a floresta.

La Plus Précieuse des Marchandises - TAP Cinéma

Em uma era de falta de informação e repressão militar, um casal polonês, vivendo nas profundezas de uma floresta silenciosa, longe de toda agitação das capitais que estavam sofrendo com o regime nazista, reproduzem o repúdio pelos perseguidos da Segunda Guerra Mundial. Até que, então, bate em sua porta um jovem bebê, perdido dos pais, vítima de circunstâncias dolorosas e com o lembrete vivo do significado de humanidade.

Uma mãe que anseia pelo filho perdido, reza a beira dos trilhos de um trem que caminha para morte, implorando a todas forças divinas que crê por mais uma chance de ser mãe. Quando ouve um choro pela floresta, corre através da neve em um ímpeto, atordoada porque suas orações foram atendidas. O fato da bebê ser uma “sem coração” não é um fator relevante para ela, porque não é uma verdade em seu próprio coração. Ainda que judeus sejam equiparados, nessa época, a animais selvagens, aquele bebê em suas mãos era o reflexo do seu clamor, e isso bastava.

La Plus Précieuse des Marchandises : Bande annonce - Brève | Catsuka

O amor de mãe em “A Mais Preciosa Das Cargas” move muralhas, derruba preconceitos e é gás para a sobrevivência. Lutando contra todas as chances que estavam contra ela, a combinação do seu amor maternal com a risada inocente de uma bebê levam à floresta remota a lembrança do que é viver em dias que não eram mais de guerra, nem miséria ou pobreza. É o combustível para um casal perdido na escuridão do luto que se alastra a todos ao redor detém de um senso emergente de protegê-la.

Em meio a uma história sobre ruptura de preconceitos e o brilho esperançoso de segundas chances. “A Mais Preciosa Das Cargas” não deixa o espectador esquecer o que está acontecendo paralelo a isso. O trem, que serve como plano de fundo para a história da família, toma forma com centenas de judeus à caminho de sua sentença de morte. Um pai desesperado, temendo o pior, atira um dos seus filhos pela janela. Atormentado por essa decisão por toda a sua vida, acompanhamos em tela, através de uma animação assustadora, os demônios da sua realidade em conflito com da sua mente.

A Mais Preciosa Das Cargas” é um filme difícil de digerir. Com poucos diálogos, o que fica no holofote são as reações dos personagens diante dos acontecimentos de sua vida. Como se olhar no espelho e não se reconhecer, diante do tamanho terror em seus olhos, as marcas permanentes de uma guerra que, hoje, insistem em negar a autoria.

A animação vem como um lembrete amargo do que aconteceu na segunda Guerra Mundial, lembrar para nunca repetir. Mas, principalmente, para acender o fogo da esperança em tempos sombrios, de que, por mais otimista que eu possa soar, a empatia e o amor é o que nos faz sermos humanos. E se continuarmos humanos, assim, nós teremos chances contra os lobos vestidos de cordeiros (ou com uma peruca loira e um bronzeado dourado).

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