Com grande elenco, Netflix adicionou recentemente em seu catálogo uma nova produção sul-coreana que explora luto, tecnologia e a ética por trás disso. Com direção de Kim Tae-yong, Wonderland faz sua própria versão de Black Mirror, entre deslizes em desenvolver vários arcos narrativos, o filme, ao fim, garante um saldo mais positivo que negativo.
Com uma mistura de ficção científica e romance, Wonderland é ambientada em um futuro próximo onde a tecnologia toma conta de quase todos os aspectos da vida humana, com destaque para a inteligência artificial. E é neste cenário que é criado um recurso que permite interações com entes queridos que já se foram ou mesmo pessoas amadas que permanecem em coma.

Com um pouco menos de 2 horas de duração, Wonderland constrói ao menos 5 histórias paralelas que se entrelaçam em meio a um objetivo comum: o luto. No decorrer do longa acompanhamos perspectivas diferentes da dor de perder alguém amado ou de deixar aqueles que amam sem amparo emocional. O filme escolhe traçar um caminho que romantiza a ferramenta de inteligência artificial, ignorando as implicações morais e éticas, além dos interesses lucrativos da empresa. Por mais que o filme evidencie, brevemente, como o sistema tecnológico explora a dor e converte em dinheiro através de compras dentro do aplicativo, os personagens por trás desta tecnologia são humanizados demais, não realizam o contraponto que a história necessita e faz com que uma empresa milionária saia como benevolente e a história um tanto ingênua.
Por esta mesma razão que todo plot que envolve a dupla responsável pela IA é descartável na trama, não adiciona nada relevante, nem minimamente plausível para o progresso da história. Para quem acompanha produções sul-coreanas fica ainda mais frustrante ver todo potencial de Choi Woo-Sik desperdiçado em um personagem raso e monodimensional.

Vale mencionar que outra coisa que deixa a desejar é o desenvolvimento da história compartilhada entre Suzy e Park Bo Gum. Ainda que todo romance vivido pelo casal tenha sido um sonho prazeroso de ser assistido, com direito a serenata de amor e cumplicidade de um casal íntimo, quando há o ponto de virada em sua história o filme simplesmente não sabe que rumo tomar. Quando Wonderland teve a oportunidade de abordar temas que agregariam discussões entre quem estivesse assistindo, ele simplesmente escolhe tomar o rumo mais fácil e ignora todas as implicações do perigo da tecnologia em pessoas vulneráveis.
Por outro lado, há de enaltecer todo arco narrativo vivido por Tang Wei. A atriz, que quase representou a Coreia do Sul no Oscar de 2023 com Decisão de Partir, é a alma do filme! Todo dilema entre certo e errado, sonhos não vividos e o amor de mãe que sobrevive a morte é desenvolvido de forma tão primorosa que ao fim é impossível não se emocionar com a tamanha gratidão e carinho que transborda entre as três gerações de mulheres da mesma família.

Assim, Wonderland chega ao fim com um gosto amargo, carregando consigo as inúmeras possibilidades de ser um diamante da Netflix, mas se contenta em ser apenas mais um lançamento “ok” do streaming com grandes estrelas para chamar atenção das dorameiras. Contudo, é impossível negar a atenção a qualidade visual da obra e de como o elenco contribui para uma experiência melhor do que poderíamos esperar da história, fazendo, assim, uma boa pedida para assistir em um domingo à tarde.
Nota: 3/5








