CRÍTICA | She-Hulk é a série mais corajosa da Marvel

Na última quinta-feira (13) foi ao ar o último episódio da série Mulher-Hulk: Defensora de Heróis. A série foi duramente criticada pelos fãs e amarga a menor nota no IMDB entre as séries da Marvel Studios até então. Mas será que a série é tão ruim assim?

She-Hulk desde o início propõe ser uma série de comédia voltada muito menos para o lado heroico que luta contra caras maus e mais para a vida da heroína e sua dupla identidade. A série é perfeita? Longe disso, mas ela tem vários acertos que estão sendo ignorados por fãs que não entenderam a proposta da série. Cum uma ótima atuação de Tatiana Maslany, She-Hulk brinca com as convenções da Marvel e as quebra, como quebra a quarta parede, inicialmente causando estranheza e depois causando uma relação de intimidade com o espectador. A série é, na verdade, sobre uma advogada que ganha poderes quando não queria recebê-los, e depois se depara que eles não são tão ruins assim, enquanto lida com os dilemas de ser uma ‘supermulher’.

A todo momento é jogado sintomas de comparação entre a She-Hulk e o Hulk (tirando pelo próprio nome da heroína), a série sabe problematizar muito bem as situações machistas da sociedade sem deixar o ambiente pesado ou um clima de militante de twitter. Jennifer Walters é uma personagem super identificável por seu fracasso e pelos problemas que ela carrega.

O primeiro episódio da série é irreverente e já traz uma mostra se você iria odiar ou amar a série. O piloto ditou muito bem o tom cômico que o show adotaria e começou trazendo algo que veio em todos os episódios: participações especiais. O grande ponto baixo desse episódio é o modo que a Jen recebe seus poderes que acelera o tempo da narrativa, já que os episódios são mais curtos, mas deixaram uma situação tosca. Porém esse fato começou a ser ignorado com o decorrer da série.

She-Hulk adotou o esquema de ‘problema do episódio’, cada semana Jennifer teria uma aventura, que funciona tanto separadamente quanto uma narrativa contínua. O foco principal era sempre na vida da Jennifer Walters tentando se adaptar à vida da She-Hulk. A série aborda de forma muito boa o machismo incrustado na sociedade e nas corporações, o desejo que as mulheres têm de romances e prazeres e até de problemas familiares.

Os pontos mais altos da série ficaram na reta final. A participação do Demolidor, trazendo Charlie Cox mais uma vez para viver Matt Murdock, foi a combinação perfeita de comédia com ação. É neste episódio que vemos a She-Hulk como heroína pela primeira vez efetivamente e presenciamos uma das maiores químicas do MCU (o que deixou alguns fãs puristas incomodados).

O outro ponto foi o episódio final, que virou um episódio ‘ame ou odeie’. A season finale estava se encaminhando para um final tradicional Marvel de brigas, revelações e uma conclusão apressada até que veio a grande surpresa: She-Hulk sai do ‘mundo da série’ e vem para ‘o mundo real’ passeando pelo catálogo Marvel. É nesse momento em que a Jennifer crítica toda a fórmula Marvel. A gente entende essa sensação estranha da Marvel criticando a própria Marvel e fica na dúvida se é apenas uma piada ou se a criadora da série, Jessica Gao, realmente teve essa liberdade. A série abre mão de um final espalhafatoso, para um final que condiz com o restante da série: uma comédia crítica sobre uma mulher com problemas reais, que vira uma Hulk e precisa lidar com isso.

Mulher-Hulk: Defensora de Heróis é uma ótima série e prova que a Marvel pode explorar novos caminhos. A maior parte dos espectadores que não gostaram do show vem com respostas que a própria série critica, e provavelmente Gao sabia que eles viriam. She-Hulk debocha desses espectadores e ‘fãs’, e esse incômodo faz com que rejeitem a série e peçam por mais produções de hominhos com poderes se batendo.

É incerto o caminho que a Marvel dará para She-Hulk e se a empresa continuará explorando esses novos caminhos ou se voltará para a zona segura. O certo é que se filmes de heróis estavam à beira da saturação (se não já passaram desse limite), She-Hulk trouxe um refresco para esse olhar, protagonizado e criado por uma mulher, com vários fan-services e com uma qualidade que se mantém (não falaremos nessa crítica sobre o CGI da She-Hulk, pois os problemas disto estão em outro aspecto da produção que cabe a melhores condições de trabalho aos trabalhadores de efeitos especiais).

NOTA: 4/5

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