CRÍTICA | “Bom Dia, Verônica” traz debate necessário em uma produção surpreendente

Netflix está cada vez mais apostando em produções originais brasileiras. Depois de obras cômicas e ficções científicas chegou a vez de apostar em um mistério policial regado de crítica social.

Antes de começar o texto preciso deixar claro que: a série é extremamente difícil de assistir em certos momentos e pode agir como gatilho para algumas pessoas. Tenha cuidado e leia atentamente aos avisos que ela disponibiliza. 

Em “Bom Dia, Verônica“, conhecemos Verônica (Tainá Müller) escrivã da  Delegacia de Homicídios de São Paulo que acaba vendo sua vida tomar um rumo totalmente diferente após dois casos de violência contra a mulher.

Ao longo dos 8 episódios é abordado afinco diversos tipos de violência contra a mulher, seja ele abuso físico ou psicológico. Ainda que a trama traga um tipo psicótico de “vilão” , parecendo que havia saído de um filme, a performance manipuladora e o temor das vítimas traz um ar mais realista a produção.

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Uma das coisas que mais o leva a refletir sobre as vítimas é a possibilidade de uma metáfora abordada na história de Janete. Previamente exposta no poster principal de divulgação da série, Janete está com a cabeça dentro de uma caixa de madeira. Nos episódios isso é abordado de forma que ela use literalmente com um propósito imposto pelo abusador, no entanto, vai além do que é superficialmente notado.

Janete é totalmente submissa ao seu marido Cláudio, em todos os aspectos possíveis. Emocionalmente, financeiramente e até mesmo hierarquicamente-socialmente, visto que ele é uma autoridade policial e pedir ajuda contra alguém assim é mais difícil que o habitual. Quando cheguei ao fim da série, olhei para caixa com uma outra visão. Prisão, onde Janete é mantida a ferro e fogo, trancada a sete chaves. Seu corpo, sua mente, suas decisões estão todas presas dentro daquela caixa. E a forma como a história a leva chegar a essa conclusão é uma jornada arrepiante e difícil de assistir.  

A opressão é um trabalho de dominação contínua, onde a vítima tem sua percepção colocada dentro de uma caixa criada pelo opressor.

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Ainda que Camila Morgado não tenha levado o nome de sua personagem, Janete, no título da série ela carregou todo o protagonismo da história. Mesmo que a série ainda queira vender em sua trama principal a rede de corrupção e o mistério da existência dela, a história em destaque ainda é sobre a violência da mulher. E Morgado foi mestre em entregar toda sensação necessária de uma vítima, a manipulação mental, o medo, o terror nos olhos, a dor e a impotência, mas principalmente a sua coragem e seu anseio por uma fuga, ainda que em momentos breves de lucidez. Sua personagem é tão palpável, tão real, que é impossível não se apegar, torcer por sua liberdade e felicidade e consequentemente derramar lágrimas por ela.

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No entanto seria absurdo omitir todo potencial de Müller em trazer uma personagem presa em uma rede de manipulação e mentiras. O que mais surpreende é o desenvolvimento de sua atuação ao longo dos episódios. É crescente a fúria dentro de si, e é visível. Sua atuação traz um ar caótico gradativo, a medida em que as verdades – tanto de sua vida pessoal como profissional – caem como bomba em seu colo. O estado de loucura por duvidar de tudo e todos, de toda manipulação que sofreu, de não saber mais o que é verdade ou não e ao mesmo tempo através de uma mulher forte e capaz de não ferir sua integridade no caminho… Müller entregou com excelência.

As demais atuações estavam proporcionais ao que seus personagens exigiam, contribuindo com a história de maneira satisfatória e dando prosseguimento ao enredo de forma fluída e imersiva.

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Talvez o único ponto negativo seja o desempenho de Elisa Volpatto como Anita. Seu antagonismo é fraco e não convence. Na maior parte das vezes parece uma mera picuinha entre colegas de trabalho e não da dimensão necessária que deveria ser, como a história por trás de sua personagem requer. Ainda assim, ela consegue trazer ao espectador com sucesso o sentimento de repugnância pelo caráter de sua personagem e a curiosidade em saber a sua história e todo mistério que a envolve.

Ainda que sua performance não seja das melhores, a sua personagem trouxe o debate do machismo enraizado a luz do debate. Além do machismo evidente e explícito na atuação dos policiais e em seus discursos, o que mais choca e machuca é quando vem da Anita, uma mulher que constantemente duvida da vítima mulher. Reproduz falas comuns que com certeza você já deve ter ouvido algum lugar e provoca um alerta: NÃO SEJA COMO ANITA.

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O desenvolvimento da história é perfeitamente adequado com o ritmo da trama que chega ser impossível acionar o “pause” em seu controle remoto, você fica tentado a maratonar e descobrir o que será das vítimas e de toda rede criminosa. As surpresas e descobertas/reviravoltas, que são adicionadas aos poucos a cada episódio, chegam na medida certa e criam ao fim uma obra surpreendente e chocante.

Bom dia, Verônica” é uma série com um olhar cirúrgico da vivência e da dor da mulher. Seja na violência doméstica ou em golpes online e até mesmo na infância, onde a ideia de corpos ou comportamentos “ideais” já são implementados.  Absolutamente todos os tópicos levantados durante seus episódios são extremamente necessários e devem ser urgentemente debatidos. Não é uma mera ficção, é a realidade.

Você pode assistir todos os 8 episódios na Netflix.

Nota: 4,7/5

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