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3T INDICA | Nada Ortodoxa e a autoaceitação de ser livre

Lançada agora (não tão agora) em março desse ano, Nada Ortodoxa é uma agradável, curtíssima e certeira surpresa distribuída pela Netflix aqui no Brasil. Dividida em apenas 4 capítulos de 54 minutos (mais ou menos), essa minissérie super indicada ao Emmy 2020 é uma montanha-russa de emoções para os espectadores. Pelo menos para este que vos fala. Viciante, energizante e revigorante: a corajosa história de Esther Shapiro é tão envolvente quanto um cobertor numa noite de chuva.

Vamos começar pelo básico: Nada Ortodoxa é “baseada” (aqueeeles “baseados” em fatos reais) na história real de Deborah Feldman, a qual se tornou escritora e publicou sua história sob a forma de autobiografia (publicada pela Intrínseca aqui no Brasil).

Com apenas quase 4 horas de tela, a minissérie (AMÉM, uma continuação é desnecessária) já acumula várias indicações ao Emmy 2020, como eu disse anteriormente: melhor minissérie, melhor atriz, melhor atriz em minissérie (sim, são duas categorias diferentes), melhor tema de abertura, melhor direção e melhor elenco.

A minissérie nos mostra os momentos antes do casamento da “recém-18 anos” Esther Shapiro (Shira Haas) e 1 ano depois, quando Esther decide fugir/abandonar (tem um certo embate nisso aí para a personagem) a comunidade judaica ortodoxa (“ortodoxo” quer dizer rigoroso, que segue as normas da igreja com afinco) Williamsburg.

De Nova York para Berlim, sozinha, sem conhecer o mundo e com apenas alguns poucos documentos e uma foto, Esther parte em uma jornada para além do seu limitado e conhecido território em busca de si mesma, confrontando a própria religião para alcançar um tipo de liberdade que, até então, desconhecia. Aliás, liberdade e ressignificação definem todos os aspectos dessa trama encorajadora. Ah, e esteja pronto(a) para chorar.

Uma das coisas que mais amei aqui foi a representatividade do judaísmo. Eu sou um completo leigo a respeito dessa religião, então tudo o que conheço dela aprendi com mídias que nem sempre são fiéis à realidade. Aqui, a minissérie foi muito, muito além da oração deles com aqueles movimentos de “vai e vem”, dos cachinhos de cabelo masculino encaracolado e do uso da estrela de Davi.

Mostrar a língua Yiddish, rituais até então desconhecidos pelo povão e o funcionamento de um casamento ortodoxo foi uma decisão corajosa e extremamente certeira. Em certos momentos, peguei-me imaginando estar ali, naquela situação, naquela vida (e todos os sufocos que eu passaria lá). A imersão foi absolutamente fantástica!

Agora vou rasgar seda para o elenco: e que elenco! Todos as atrizes e atores são desconhecidos para mim e foi uma surpresa gigante perceber que todos eles (ou pelo menos a maioria) são estrangeiros em relação aos EUA. “Mas e daí??” você me pergunta. Daí que todas as atuações são mais cruas e carregam uma diferença enorme da dramaticidade já conhecida, estabilizada e acostumada de Hollywood. A interpretação de Shira me deixou sem palavras. Em alguns momentos, dá pra sentir a angústia, a confusão e o medo que a atriz transparece apenas pelos olhos diante de uma situação religiosa sem sentido para a personagem.

Todo o carisma que ela consegue fornecer à personagem deixa nós, espectadores, torcendo por ela. Você, jovem (ou não) leitor, vai ficar tão apegado à personagem… e vai querer abraçá-la e falar que tudo vai ficar bem o tempo inteiro.

Mas indo para além da principal, todo o elenco tá maravilhoso também: Amit Rahav interpreta um marido ingênuo e confuso perfeitamente bem, Jeff Willbusch interpreta o verdadeiro vilão do show (o que eu achei fantástico, pois tirou a religião da luz “vilanesca” que esse tipo de produção geralmente a insere), Dina Doron interpreta a avó que não sabe reagir à sua rebeldia pela confusão de sentimentos de amor pela neta e amor pela religião. Enfim, nenhum dos atores decepciona na carga dramática exigida.

Como citei quase ainda agora, essa produção não coloca religiões ortodoxas como vilãs na vida de ninguém. Isso é inovador e realista. Inovador pois foge das mesmice de por uma personagem (e o público) contra uma religião. E realista pois é a realidade. É difícil mas não é impossível entender: os costumes, rituais, pensamentos e atitudes de um povo não foram criados ou desenvolvidos em cima da crueldade.

São apenas pessoas tentando viver a vida como interpretam que sua divindade os orientou, sem serem malignos, sem querer punir os outros. Essa interpretação coloca as ações desses religiosos na balança, deixando mais difícil para o espectador escolher um lado: a liberdade da principal ou a família desesperada pela integrante que desapareceu? Embates morais sobre responsabilidade, afeto e diferentes tipos de amor são peças essenciais em cada episódio.

Porém, o principal embate aqui (mostrado logo no comecinho de forma sutil) é sobre aceitar sua verdadeira natureza. Esther sofre (e a gente sofre junto) para perceber que ela não pertence àquele lugar. Imagine passar a vida inteira em um ambiente, sob sua religião e não conhecer praticamente nada do mundo e, mesmo assim, perceber que você não se encaixa na única coisa que você conhece? Isso é doloroso e Shira consegue nos passar e nos causar essa dor apenas com seu olhar.

Preferir aceitar toda a vastidão do mundo é amedrontador. A liberdade consegue sufocar os oprimidos quando a experimentam. Mas sempre é a escolha certa e (às vezes) difícil. Para Esther, foi uma escolha muito, muito longa. Um ano inteiro casada (com uma cena de gatilho à respeito de conteúdo sexual, muito cuidado!) para entender um pequeno aspecto sobre si, e toda uma vida fora de suas limitações para descobrir todo o resto… Essa minissérie vai pegar você de um jeito que… nossa! Eu não tenho palavras para falar para vocês.

Bem, já falei demais. A minissérie é emocionante e conta com diálogos muito fortes que conseguem ressignificar nossa visão a respeito de muitos aspectos da vida. A produção da Netflix ainda conta com várias frases sutis sobre feminismo, autoempoderamento e ressignificação sobre o que um dia te feriu gravemente (nessas últimas frases, eu chorei descontroladamente). Escolha sempre o que for melhor para sua vida, pois nosso tempo é curto e imprevisível nesse plano terreno. Corra sempre para se descobrir, não para agradar os que te rondam. Deus (se você acredita nele) estará sempre com aqueles que amam a vida e que são corajosos o suficiente para escolher a liberdade.

P.S.: como eu citei brevemente antes, em um dos episódios há uma cena que pode disparar gatilhos em pessoas sensíveis. Essa cena já forte apenas pelo diálogo que tem nela, mas a questão visual e sexual dela pode causar sentimentos horríveis, como causou em mim. Sigam com cuidado e adiantem a cena visual se preferirem.

P.S.2: existe um pequeno making of de apenas 20 minutos disponível na Netflix falando sobre a produção da minissérie. Além disso, existem dezenas de vídeos no YouTube e artigos no Google falando sobre a história que inspirou a produção. Vale muito a pena pesquisar depois de ver a minissérie e ainda ler o livro de Deborah Feldman.

Trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=BquEpgYwOeM
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