Home / Equipe / Ludmilla / CRÍTICA | “Michael” prioriza espetáculo e ignora complexidade do Rei do Pop

CRÍTICA | “Michael” prioriza espetáculo e ignora complexidade do Rei do Pop

Para mim, existem apenas três artistas que eu sempre imaginei ser impossível adaptar em cinebiografias — um deles acabou de ganhar a sua. Michael chega aos cinemas com a intenção de mostrar a trajetória do Rei do Pop, desde os Jackson 5 até o fim da era Thriller. Estrelado pelo sobrinho do astro, Jaafar Jackson, o filme certamente dividirá opiniões quanto à sua qualidade como obra cinematográfica. Mas uma coisa não poderão negar: ele é um ótimo filme-karaokê, emulador de momentos icônicos.

Dirigido por Antoine Fuqua (responsável por filmes como Dia de Treinamento e a trilogia O Protetor), Michael acompanha a trajetória de Michael Jackson, do sucesso inicial com o Jackson 5 ao auge como ícone global, explorando sua genialidade artística, ambições criativas e performances marcantes que definiram seu legado.

Crítica | Michael (2026) - Cine Eterno

Com pouco mais de duas horas de duração, o filme é completamente “chapa-branca”. Ou seja, ele se propõe a criar uma história que não desagrade nenhum membro vivo da família Jackson. Sendo assim, por muitas vezes é evasivo, superficial e não aborda, com a devida carga dramática, os acontecimentos que moldaram não só Michael como pessoa, mas também como artista.

A vontade de não se indispor com ninguém fez com que John Logan escrevesse um roteiro de apenas um tom, que abusa de reprisar arcos narrativos durante o crescimento do astro. Cria-se um ciclo repetitivo entre herói e vilão (Michael e seu pai, Joseph), uma dinâmica de gato e rato, causa e consequência, entre os dois personagens. Por ser tão redundante e receoso de manchar o nome da família, o filme ignora outros conflitos da vida do astro e o reduz a uma única personalidade: o inocente infantilizado.

Michael 2026: Everything We Know About the Upcoming Michael Jackson Biopic

Todas as camadas de Michael são ignoradas em prol da criação de um herói que almeja sua liberdade. O filme isola o artista e evita colocar outros grandes nomes que marcaram sua trajetória como criador. Quincy Jones, um dos nomes mais importantes na vida do cantor, tem pouquíssimo (quase nenhum) destaque. Nomes como Paul McCartney, Elizabeth Taylor, Diana Ross e Stevie Wonder são completamente ignorados, mesmo tendo sido de vital importância dentro desse recorte de tempo. Isso dá a entender que o filme não soube como retratar Michael como indivíduo e escolheu tratá-lo como um ideal, criando uma imagem imaculada e inocente para construir uma jornada de herói-vítima.

Não me entenda mal: eu não estou pedindo um filme-evento como Vingadores: Guerra Infinita, com uma salada de participações especiais. Mas, quando se faz uma cinebiografia que promete retratar tanto a vida pessoal quanto a artística e ignora as pessoas que colaboraram com os álbuns, que foram mentores e que conseguiram extrair o melhor do artista ao ajudá-lo a encontrar sua identidade… você não cumpre seu objetivo inicial.

O desafio de interpretar Quincy Jones no filme MICHAEL | MJ Beats

Para além disso, Michael faz escolhas curiosas na construção de alguns diálogos. Devido ao excesso de inocência atribuído ao protagonista, o filme cria frases de efeito que funcionam como um discurso didático para ilustrar fases da vida do cantor. Por exemplo: quando Michael sofre o fatídico acidente com queimaduras severas, o filme opta por ser expositivo — ele não mostra a mudança, ele quer explicar a mudança. E isso se repete em outros momentos, como no processo de criação de músicas e videoclipes, em que o personagem precisa estar vendo uma inspiração na televisão para justificar ao público de onde veio aquela ideia. Antoine Fuqua subjulga a inteligência do espectador e cria uma narrativa tão mastigada que parece feita para ser assistida enquanto você rola o TikTok.

Mas há algo que não dá para criticar: as performances musicais. O filme é excelente nisso. Ele constrói concertos, apresentações e momentos musicais inesquecíveis, com um primor rico em detalhes que te pega pela emoção. E é aqui que a gente, de primeira, acaba confundindo as coisas: somos seduzidos pela nostalgia e pela discografia impecável do Rei do Pop, a ponto de ignorar os defeitos do filme.

Michael (2026) Movie Tickets & Showtimes Near You | IMAX

Não poderia fazer esta crítica sem destacar alguns dos meus momentos favoritos. A montagem da era Off the Wall talvez seja a mais interessante e divertida de assistir: é um dos poucos momentos em que a linguagem do álbum dialoga diretamente com o visual do filme. Ao mostrar a construção do clipe — que revolucionou a tecnologia da época —, a vida noturna das discotecas e o início da Jackson Fever em seus primeiros anos como solista, o filme acerta em cheio. Aqui, a diversão anda de mãos dadas com a construção da narrativa: é inebriante e sedutor, dá vontade de fazer parte daquilo.

Isso também se estende a Human Nature, um dos momentos do terceiro ato, que apresenta um artista mais dramático. Mesmo sem explorar a fundo seu processo criativo — que exalava sua humanidade —, a direção da performance é emocionante e chegou a me arrancar algumas lágrimas.

Michael', longa que retrata a vida e o legado do Rei do Pop, ganha novo  trailer; assista - Rolling Stone Brasil

Jaafar Jackson é excelente como cover-performer de seu tio, mas a direção monótona de seu personagem limita seu potencial. Ainda assim, o ator entrega bons momentos, que emocionam e até adicionam uma dose de humor à trama. Por outro lado, quem não decepciona em momento algum é Juliano Krue Valdi, que interpreta a versão criança de Michael. Além do carisma e do inegável talento no canto e na dança, Valdi protagoniza uma das cenas mais difíceis de assistir, cria conexão com o público e estabelece, desde cedo, quem devemos odiar e quem devemos amar.

Se por um lado Michael tem a delicadeza de introduzir o vitiligo do astro de forma natural, bem como o início de sua obsessão com a aparência (e cirurgias plásticas), por outro, não tem o tato de transmitir a identidade do cantor através da linguagem fílmica. A montagem, que se assemelha à de um filme de TV, perde sua grandiosidade ao ser simplesmente… medíocre — nem boa, nem ruim, apenas ordinária. O que claramente não condiz com a persona de seu protagonista.

Michael (2026) - IMDb

Deste modo, posso afirmar, com pesar no coração, que Michael acaba sendo muito mais eficiente como filme-concerto do que como biografia de um dos maiores astros que a música já viu. Com falhas claras nas transições entre as eras do cantor, o filme se apoia inteiramente na semelhança do protagonista com a pessoa real para comover e conquistar a plateia. Ainda assim, não diria que Michael é um filme ruim — mas está longe do nível de seu astro.

O que fica agora é o meu receio pela sequência, confirmada ao fim do filme, que deve retratar o fim dos anos 80 e os polêmicos anos 90. Se a direção teve medo de abordar os abusos familiares, será que terá coragem de criticar o assédio midiático do qual o cantor foi vítima? Bem… resta esperar.

Michael já está em exibição nos cinemas de todo o país.

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *