Um pai e uma filha acidentalmente atropelam e matam um unicórnio enquanto estavam a caminho de um retiro de fim de semana, onde seu chefe bilionário tenta explorar as propriedades curativas milagrosas da criatura. O terror (com pitadas de comédia) marca o lançamento de Alex Scharfman na direção de longas-metragens, o diretor também assina o roteiro. Apesar de um diretor estreante, o filme distribuído pela A24, conta com grandes nomes no elenco, como Paul Rudd, Jenna Ortega e Will Poulter.
A Morte de um Unicórnio traz um roteiro com uma crítica bem explícita ao corporativismo e exploração capitalista, se aproveitando da fantasia e através de personagens que traduzem as diversas personas nesse sistema em que vivemos. O filme constrói o seu filme, para além das metáforas, com a sátira, o que fica bem evidente no seu primeiro ato. O arco inicial do filme brinca com os signos do terror, porém se aproxima mais de uma comédia satírica.
Paul Rudd, que interpreta Elliot, é um pai que faz de tudo para crescer no mundo dos negócios, dizendo que é para o bem da família ao mesmo tempo em que negligencia sua filha Ridley, interpretada por Jenna Ortega. Os dois atores estão em lugares confortáveis na obra, Rudd sendo um alívio cômico, mas também conseguindo desempenhar bem sua função nos momentos de tensão, e Ortega interpretando uma adolescente solitária, mas esse seu distanciamento da realidade corporativa faz com que ela veja a situação de forma mais lúcida.
Apesar de muito bem em seus papéis, os demais atores fazem uma função bem coadjuvante na trama. Richard E. Grant, Téa Leoni e Will Poulter formam a família magnata e totalmente estereotipada. No terceiro ato Anthony Carrigan rouba a cena nos seus breves momentos, o ator que já vem chamando a atenção pelo seu humor sério desde a série Barry.

Assim como a construção dos personagens, a crítica do filme fica rasa. Odell Leopold (Richard E. Grant) é o dono de um laboratório farmacêutico e ao descobrir que o sangue da criatura morta tem sons curativos, quer explorar aquele corpo em prol do seu lucro. Nesta toada, ele e sua família oferecem a escassa novidade apenas para a elite mundial, fazendo alusão ao pacto burguês que vemos no sistema capitalista, no qual as pessoas mais pobres não têm acesso a certos produtos, incluindo remédios. Porém, nesse quesito as coisas aparecem de maneira bastante óbvia, não fazendo uma surpresa ao espectador.
Para a construção do terror, Alex Scharfman larga mão da mitologia de unicórnios fofinhos e retorna às criaturas míticas de forma mais perversa, sendo matam sem piedade e com requintes de crueldade àqueles que lhe fazem mal. Mas o filme também não caminha para um teor sobrenatural, transformando os unicórnios em seriais killers, aproximando o filme a um slasher.

Por fim, A Morte de um Unicórnio crítica aos magnatas, mas faz péssimas escolhas raciais na construção da obra. A família dona da empresa é formada de pessoas brancas, representando bem os donos das grandes corporações, porém todos os seus funcionários também são brancos. Os personagens racializados que aparecem em tela são Dr. Song (Steve Park) e Dra. Bhatia (Sunita Mani), colocando personagens de descendência asiática no estereótipo que eles servem apenas para a ciência, porque são naturalmente inteligentes (e algumas escolhas de roteiro reforçam isto). Além do mais colocam os unicórnios em momentos de vilania como a pelagem de cor preta, e quanto voltam a naturalidade e bondade, a sua pelagem fica branca (acho que não preciso nem discorrer da problemática disto).
A Morte de um Unicórnio traz uma crítica interessante, mas também parece querer ser maior do que realmente é. A construção do terror misturado com comédia para ter o tom satírico também é bem feito, mas nada fora do que já vimos no cinema de horror nos últimos anos. No fim das contas, a obra é um bom filme de estreia para Scharfman, que se lança com uma grande visibilidade, mas também mostra que o diretor ainda tem um caminho para amadurecer, principalmente em aspectos conceituais.
O filme está em exibição nos cinemas de todo o Brasil.
NOTA: 2,5/5








