Este texto contém spoilers
Depois de 2 anos de uma primeira temporada excelente, The Last of Us retornou com uma missão difícil: introduzir uma Ellie sanguinária e com sede de vingança. Com o surgimento de Abby e o sentimento latente de retaliação no ar, a segunda temporada deixa a desejar ao criar uma protagonista-coadjuvante da própria história.
A segunda temporada de The Last of Us, baseada no jogo The Last of Us Part II, se passa cinco anos após a primeira. Agora, com Joel e Ellie enfrentando as consequências do passado. Após um trauma, Ellie busca vingança, enquanto Abby, uma soldada, cruza com seu caminho em um confronto intenso, abordando ódio, perdão e sobrevivência no cenário pós-apocalíptico dos EUA.

Talvez a parte mais difícil, emocionalmente, da temporada seja a despedida de Joel Miller (Pedro Pascal) da forma mais brutal possível. O desempenho de Pascal nessa temporada é condizente com a nova fase do personagem, mais ameno e com um ar de pai mais presente do que seu lado assassino. Com os ombros carregados pela culpa de uma mentira dolorosa, as interações iniciais entre Joel e Ellie (Bella Ramsey) são difíceis de assistir para quem estava apegado a relação leve dos dois. A mudança brusca no relacionamento é a dose de drama necessária para sentir o peso de sua despedida.
Com um começo instigante e emotivo, a nova temporada assassina um dos personagens mais queridos pelos fãs. Adicionando isso ao surgimento de Abby (Kaitlyn Dever) à história, o início da 2ª temporada de The Last of Us guardava ótimas expectativas para o seu desenvolvimento. Mas, será que ela conseguiu replicar o sucesso e a aprovação do público como na temporada anterior?
Tirando as críticas frívolas feitas ao protagonismo de Bella Ramsey, o envolvimento de Craig Mazin no roteiro mostrou efeitos negativos nesse novo arco, evidenciando o despreparo para lidar com uma história tão complexa. O maior pecado da temporada é a falta de protagonismo de Ellie na sua jornada de vingança. Com a necessidade de ser motivada a todo momento por outros personagens ao seu redor, seu ódio sempre é visto como uma promessa. Sua vingança? Um eterno “vem aí”. As mortes? Acidentais. Fazer da Ellie uma personagem tão desmotivada, enfraquece o principal pilar narrativo: a morte de Joel e como quebrar o ciclo de violência.

Contudo, há de salientar que os personagens secundários, por outro lado, ganharam momentos importantes e de destaque (com exceção de Tommy). Isabela Merced talvez seja a grande felizarda da temporada, ao lado de Dever. Com um bom texto para auxiliar, Dina toma para si uma chama de vingança que faltou em Ellie, impulsiona a jornada, motiva a história e nos faz ficar apaixonados por ela. Kaitlyn Dever também, apesar de ter aparecido em apenas 3 episódios, a atriz evidencia a discrepância com seus colegas de tela ao entregar uma das cenas mais difíceis da temporada, deixando todo mundo que criticou seu aspecto físico de queixo caído.
Já Jesse (Stephen Chang) traz opiniões divergentes quanto ao seu papel nesta temporada. Por mais que o ator tenha feito um bom trabalho e tenha sido interessante observar a dinâmica entre os três (ele, Ellie e Dina) em tela, sua presença é apenas uma lembrança da incapacidade do roteiro de dar um protagonismo forte e independente a Ellie. O mesmo acaba acontecendo com Tommy (Gabriel Luna) de certo modo, que é apagado e diminuído, mesmo que o grande assassinato da história tenha sido do seu irmão. O episódio final fortalece essa ideia, apesar de boa atuação, não vemos seus feitos nutridos pelo ódio e o luto. A esperança que fica é que assistiremos isso ao trocar de pontos de vistas na próxima temporada.

A 2ª temporada consegue trazer uma boa adaptação isolada de cenas que “copiam e colam” o jogo, fazendo os fãs surtarem, principalmente no primeiro episódio e depois no sexto episódio (o fatídico episódio dos flashbacks com Joel). É nesses momentos que lembramos da primeira temporada, que tinha cuidado ao moldar os acontecimentos do jogo base para um novo formato de storytelling, não copiar por copiar.
O que resta ao fim é uma história morna. The Last of Us não entrega uma 2ª temporada ruim, mas não é marcante como a primeira. O que ela consiste dessa vez é em uma coletânea de momentos interessantes que são deixados de lado nos episódios seguintes, não tem uma continuidade coesa que seja motivada por todo o sofrimento do início da história.
As duas temporadas de The Last of Us estão disponíveis na HBO MAX.
Nota: 3,5/5