Considerado “amoral”, Onda Nova retorna restaurado e remasterizado em 4K nos cinemas de todo o país no dia 27 de março, após ter sido censurado durante a ditadura militar brasileira.
Lançado originalmente em 1983, Onda Nova é uma comédia erótica e anárquica que reúne histórias das jogadoras do Gayvotas Futebol Clube, um time de futebol feminino recém-formado em plena ditadura militar, no ano em que o esporte foi regulamentado no Brasil, depois de ter sido banido por 40 anos. Com o apoio de renomados jogadores da época como Casagrande, Pitta e Wladimir, elas enfrentam os preconceitos de uma sociedade conservadora. Paralelamente, lidam com seus problemas pessoais e familiares, e se preparam para um simbólico jogo internacional contra a seleção italiana.

Explorando o desejo, e o transformando em protagonista da obra, Onda Nova celebra a juventude e as formas de expressão de uma geração brasileira que ansiava pela liberdade de poder ser o que quisesse ser. Utilizando o futebol como elemento de união entre as personagens femininas e seus arcos narrativos, bem como também como uma bandeira de resistência e identitarismo de um grupo de mulheres inconformadas com o papel de submissão feminino estabelecido na sociedade, Onda Nova é uma surpresa deliciosa, picante e bem humorada.
Certamente o relançamento neste momento de uma obra silenciada durante uma época de repressão no Brasil é um marco de vitória para toda a população. Ainda que o filme não levante bandeiras políticas, o ato de liberdade sexual e autonomia da sua existência por si só é político. Deste modo, vale deixar frisado que o relançamento do filme só foi possível graças a um cuidadoso processo de restauração conduzido por Julia Duarte, Aclara Produções Artísticas e pela família de José Antonio Garcia, com apoio da Cinemateca Brasileira, Zumbi Post e JLS Facilidades Sonoras.

Um clássico que urge da necessidade de ser redescoberto pela geração atual, flerta com o gênero da pornochanchada de uma maneira irreverente. Onda Nova subverte o que havia sido apresentado nos últimos anos ao dar o protagonismo para as mulheres, transformando a narrativa centrada no olhar feminino, suas dores, anseios e conflitos.
A restauração resgata São Paulo de uma época não tão distante, mas que não existe mais. Aproveitando-se das cores vibrantes que conversam diretamente com o imediatismo da paixão pelo esporte e por suas relações afetivas, Onda Nova atinge o feito de atravessar o tempo e ser correlacionado com produções atuais como Euphoria e Rivais, de algum modo.

Onda Nova resgata a audácia que o cinema brasileiro já mostrou ter, a perspicácia de ser sagaz e impetuoso. Transgressor e relevante nos dias atuais, a produção pode servir de porta de entrada para um novo público que não conhece o gênero e sente a necessidade de realizar pessoalmente esse resgate histórico do cinema brasileiro.
Para o diretor Francisco Martins, a proibição de Onda Nova pela ditadura foi consequência direta da liberdade que o filme expressava: “É um filme onde o desejo assume o protagonismo. Mesmo não tratando diretamente de política, ele se tornou um alvo da censura porque celebrava o desejo como potência de vida e identidade – algo que, por si só, já era um ato de resistência”.
O filme estreia, nesta quinta-feira, dia 27 de março, nas telonas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Goiânia, Londrina, Maceió, Manaus, Natal, Petrópolis, Poços de Caldas, Teresina e Vitória. A classificação indicativa do filme é 18 anos.
Nota: 4/5