Usando como plano de fundo os casarões misteriosos do Rio de Janeiro, “Abraço de Mãe” , o novo filme nacional de Cristian Ponce, estrelado por Marjorie Estiano, utiliza do horror para contar uma história sobre traumas e cicatrizes.
Ambientado em fevereiro de 1996, durante um dos temporais mais impiedosos que atingiu a cidade do Rio de Janeiro, acompanhamos uma equipe dos bombeiros ir atender um chamado para evacuar um asilo com risco de desabamento. Ana (Estiano), uma jovem bombeira afastada após sofrer um ataque de pânico em uma operação, se vê retornando à sua antiga equipe de resgate. Ao chegarem ao local, os bombeiros descobrem que os misteriosos moradores do asilo têm outros planos com a chegada da chuva. Ana terá que enfrentar seu próprio passado para sobreviver e salvar os outros antes que seja tarde demais.

A instabilidade dos prédios, a insalubridade do seu interior e a desconfiança de todos ao redor, são alguns elementos utilizados pela narrativa para criar um dimensão dramática de Ana através do terror, personagem de Marjorie Estiano. Sem superar o seu passado traumático, exibido nos minutos iniciais de “Abraço de Mãe”, a protagonista segue em uma carreira que marca uma parte emblemática de sua vida. Revivendo seu trama de maneira incessante, o ponto alto do filme vem pela confusão entre realidade e alucinação que a personagem passa a ter no asilo que vai evacuar com sua equipe.
Aqui o terror toma conta, cresce de apenas um flerte e começa a se tornar visceral, usando e abusando do jogo de luzes e sombras, mantendo o mistério ao mesmo tempo em que exibe as consequência do que os ameaça às espreitas.

Marjorie Estiano segue liderando quanto falamos de atuação, um dos maiores nomes da atualidade não decepciona ao dar vida a uma personagem tão machucada e marcada pelo tempo. Logo, quando Ponce decide colocar metáforas em forma de alegorias horripilantes para retratar sua relação com o “materno” e seus fantasmas do passado voltando a vida no porão do asilo, tudo fica mais fácil de aproveitar com Estiano sendo a nossa guia dessa aventura.
“Abraço de Mãe” foi uma surpresa deliciosa, apesar das limitações visuais, sabe utilizar muito bem com as ferramentas que tem a sua disposição. A conexão entre passado e presente se faz importante para a elaboração do terror, bem como o seu destrinchar com a reconexão com sua criança interior. Ainda assim, vale mencionar que apesar de ter utilizado um evento real do Rio de Janeiro, o roteiro não sabe utilizar muito bem isso ao seu favor e apenas o usa como coincidência de roteiro.
Aos cariocas que cresceram com imaginação fértil a respeito das casarões abandonados, talvez este filme “bata” diferente com a memória popular, dando uma dose extra de pavor.
O filme estreia no dia 23 de outubro na Netflix.
Nota: 3.3/5