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CRÍTICA | De forma íntima e dolorosa, “Estranho Caminho” volta aos difíceis dias de pandemia

Unindo cinema narrativo com o experimental, o realismo com a fantasia, sua história com a de David, o novo longa de Guto Parente, “Estranho Caminho“, estreia nesta quinta-feira, 01 de agosto, nos cinemas brasileiros, carregando consigo o marco do filme mais pessoal e íntimo da carreira do diretor, e, talvez, o mais doloroso para nós pós pandemia.

O  drama fantástico acompanha a trajetória de David (Lucas Limeira), um jovem cineasta que, ao visitar sua cidade natal, Fortaleza, é surpreendido pelo rápido avanço da pandemia de Covid-19 e se vê obrigado a procurar o pai, Geraldo, um sujeito peculiar com quem não fala ou tem notícias há mais de dez anos. Após o reencontro dos dois, coisas estranhas começam a acontecer.

Com 1 hora e 22 minutos de duração, “Estranho Caminho” utiliza da pandemia como fator de aproximação, isolamento, enclausuramento e até mesmo claustrofóbico para construir uma história de reconciliação com o passado – entre pai e filho. A solidão de David eleva a potência desses sentimentos em tela, quando toda interação humana que ele tem é interrompida por uma barreira, seja física (pela distância geográfica de sua namorada) ou emocional (da sua relação fracassada com seu pai), causando ao drama do protagonista uma intensidade relacionável à época em que ele está inserido.

Apostando em cenários urbanos de Fortaleza, Parente realiza o contraste entre os conflitos internos do protagonista mesclando aos cenários do filme. Em momentos de introspecção, a imensidão do mar, a imersão nos pensamentos à medida em que a água (ou as areias da praia) toma conta da tela. Em outros momentos de isolação, as paredes estreitas do se micro quarto na pousada, ou o apartamento de seu pai que tem espaço para tudo, menos para ele, o que reflete muito bem a dinâmica emocional entre os dois – que se enfiam de cabeça na criação de arte, menos na criação de vínculos afetivos.

Estranho Caminho - Festival do Rio

No Festival de Tribeca, onde “Estranho Caminho” teve sua première mundial como único longa brasileiro na competição internacional, ganhou todos os prêmios que disputou: Melhor Filme, Melhor Roteiro para Guto Parente, Melhor Fotografia para Linga Acácio e Melhor Performance para Carlos Francisco.

Logo, quanto ao elenco principal, composto pela dupla Lucas Limeira e Carlos Francisco, que dividem o maior tempo de tela, não há dúvida alguma a respeito de seu talento em transmitir o conflito familiar, o desenrolar intrigante do vínculo que implora por ser criado ou, até mesmo, do mistério que envolve a vida do pai, vivido por Carlos Francisco.

Ao fim, com toda trama que se desenrola em uma fantasia-realista surpreendente, “Estranho Caminho” mostra ser também uma forma de fazer as pazes com aqueles que não conseguimos nos despedir durante os anos sombrios da pandemia. Resgatar o que não sabemos que precisava ser resgatado para (tentar) alimentar o buraco da solidão causado por essa ausência. Guto Parente constrói uma história (e personagens) tão verossímeis que causam inevitavelmente algum tipo identificação dolorosa, seja pela história, o sentimento que ela desperta ou o desejo impetuoso que ela transmite.

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