CRÍTICA | “Ainda Temos o Amanhã” narra uma triste história que ainda se repete

Ainda Temos o Amanhã (C’è ancora domani, 2023) é um filme italiano de drama e comédia escrito, dirigido e protagonizado Paola Cortellesi, e se passa na Itália pós Segunda Guerra Mundial. O filme estreia nos cinemas brasileiros dia 04 de julho com distribuição da Pandora Filmes.

Todo filmado em preto e branco, Ainda Temos o Amanhã  narra ao longo de quase duas horas a história de Delia (Paola), uma mulher casada com um marido que busca qualquer desculpa para agredi-la, que vivem com seus três filhos e o sogro. Ela acredita que essa é a única vida que ela pode viver, mesmo entendendo que não é o ideal e desejando algo melhor para a filha mais velha.

O que seria a vida comum de mais uma mulher dona de casa com um marido abusivo na década de 1940, é floreado com momentos de tentativa de alívio cômico através de momentos musicais que buscam aliviar as cenas de agressão. Talvez a tentativa fosse trazer uma comicidade aos acontecimentos, ou de propósito mostrando que todo mundo achava aquilo normal e cotidiano, mas é difícil desvincular do terror que Delia vive nas mãos de seu marido Ivano (Valério Mastandrea), que sempre pede desculpas e diz que estava “nervoso”.

É ainda mais difícil quando vemos que os filhos ouvem tudo e ficam com medo, principalmente Marcella (Romana Maggiora Vergano), a filha mais velha, que está em idade de se casar. Marcella aceitaria qualquer oportunidade de sair daquela casa para não ver a mãe naquela situação, mas o que ela não vê é que sua tentativa de casamento “por amor” na verdade a colocaria na mesma situação de sua mãe, com um homem agressivo e controlador. E para evitar que o ciclo se repita, Delia age por conta própria atingindo a única coisa que impediria que Ivano deixasse que sua filha se casasse: a situação financeira da família do noivo.

Enquanto a maioria das pessoas enxerga como normal e até engraçada a forma como Delia é tratada pelo marido, que inclusive é aconselhado pelo próprio pai a espancá-la menos para que ela “não se acostume”, uma única amiga de Delia a faz enxergar que o que ela vive não é um casamento e sim uma prisão e é aí que ela decide que precisa buscar um futuro melhor. Ela não tem ideia de como fazer isso, se fugir é a solução, mas ela descobre da melhor forma. É difícil de ver como em quase 80 anos a história ainda se repete e que mulheres ainda vivem como a Delia viveu.

Ainda Temos o Amanhã  é um olhar sobre mulheres que não tiveram a oportunidade de instrução e nem contato com movimentos feministas da época e mesmo assim entenderam que precisavam de mais e que esse mais poderia vir do primeiro grande direito civil adquirido por elas na Itália: o direito ao voto em 1946. Nessa eleição histórica, 89% das mulheres foram às urnas e de 25 milhões de eleitores, 13 milhões eram mulheres.

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